O sol ainda não tinha saído de trás do horizonte mas a vegetação estremeceu. As vozes do casal se fizeram ouvir, mas as criaturas à volta não entendiam bem o que se passava. A mulher moveu-se com passos decididos, caminhando pelas rotas que a vegetação permitia, até que chegou à clareira para ficar banhado pelo sol. Examinou à volta, até os ventos estavam quietos. Inspirou fundo e rasgou o silêncio ao meio falando a palavra que não cabia na voz de ninguém que lá habitava.
A claridade se intensificou, o próprio sol se dobrou em curiosidade. A luz, de sua imensidão, revelou milhares de olhos que a indagavam, julgavam e, como ela, esperaram. Mas o silêncio persistiu, e ela não insistiu. Porque sabia que fora ouvida, e na persistência do silêncio estava sua resposta. Deu-se ao trabalho de encarar de volta tantos olhos quanto pode.
Ela abaixou a cabeça. E os mais de mil olhos julgaram-na vencida e sumiram. Mas se enganaram. Ela tomava ar, inspirava, ao tempo que o sol voltava a seu lugar. E enquanto erguia a cabeça, levantou as mãos tão distantes uma da outra quanto pôde, os pés descalços na relva. E de seu peito brotou a canção, que chegou mais longe carregada por todo o silêncio que cobrira o jardim. Era grave, morna, soava como uma memória da qual deveriam se lembrar. Mas as vozes emergiram mesmo assim, como já era hora de cantar a manhã. Uma manhã quase normal.
Ela repetia, e todos respondiam, como se não quisessem que a canção terminasse. Ela não queria. Adiou ao máximo o fim, até se dar por vencida.
Então girou os tornozelos para senti-los ainda mais pesados, e refez o caminho de volta.
– Vamos comer? Eu tenho fome – disse impaciente.
– Vá tu. Tens que se acostumar a comer sem mim – beijou seus lábios e continuou no seu caminho, sem se alterar pela irritação visível no homem.
A manhã já se instalara com o canto no lábio das flores do jardim, mas ela não parou até ter diante de si as barras dos portões. E então notou que cada passo em sua direção era um passo que recuavam; largo ou estreito, era sempre a medida certa, ela testou. Então pôs-se a correr, para vê-los fechando à sua frente com um estrondo. Mas nem assim ela parou. Chegou aos pés das grandes portas, reluzentes e sem tranca. Tentou forçá-las, tentou puxá-las, mas não se moveram. Então ajoelhou-se, sentou-se sobre os calcanhares e respirou fundo. Muito fundo. Olhou à volta, por cima dos ombros e até para o céu. E quando a solidão espremeu as lágrimas de seus olhos, suas mãos começaram a cavar. E quanto mais suas lágrimas corriam, mais ávidas suas mãos agiam. Cavou até cansar, e então cavou um pouco mais, para em seguida espremer o corpo pela cova estreita para sair do outro lado. Rastejou para fora do jardim, colocou-se de pé e finalmente sentiu como o solo era áspero e rochoso, e quente do sol escaldante. Olhou à volta e precisou de algum tempo para encontrar alguma vegetação cujas folhas pudessem ajudar a proteger os pés das pedras do chão e o corpo da força do sol, um sol tão implacável que lhe secou as lágrimas. Calçou-se, cobriu-se. E pôs-se a andar.