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Eudoxia — seleção para leitura

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Brasil fora da Copa no primeiro do jogo da fase eliminatória. Coé, Seleção! Francamente.
Confesso que meu dia amanhã não vai sofrer grandes abalos ou alterações. Apesar de ser neta de uma flamenguista fanática, futebol foi uma coisa que com a qual nunca me afinei. Enquanto eu estava no Brasil, em geral aproveitava os jogos da seleção para ir dar uma caminhada. É o mundo de outra forma, a rua vazia em plena tarde de semana. É seguro até sentar no meio da rua, porque no meio do inverno brasileiro, o asfalto nem vai estar assim tão quente.

Mas daí a achar esta derrota aceitável é outra coisa, bem outra coisa. Eu vi Neymar jogar melhor em comerciais da Nike do que em campo para a seleção! Com o investimento que essa galera tem em cima, uma derrota dessas é uma afronta! Não me abalar é uma coisa; achar aceitável é outra, e ambas conseguem coexistir pacificamente dentro de mim. Coé, Seleção!!

Depois que vim para Portugal, a minha relação com certas coisas mudou muito, sobretudo no que se refere à minha pátria-mãe. Nada de extraordinário, é algo comum a imigrantes; a não ser que você se vire para o outro lado e comece a maldizer o país de onde nasceu. Sério, isso é uma atitude que abomino. Todos os lugares tem coisas boas e coisas ruins, e quando saímos do Brasil descobrimos que afinal não somos a forma mais baixa de vida.

Mas a distância me concedeu olhares e espaços diferentes diante de experiências que meu povo ama e que por algum motivo sou completamente imune. Inclua aí carnaval, copa, novelas e até BBB. Bom, eu sou uma cantora lírica que também canta rock, lutei jiu jitsu e a Lapa carioca era apenas onde eu estudava; é quase como se eu fosse feita de teflon diante daquilo que as pessoas ao meu redor consideram divertido. Mas então, 9 anos depois de migrar, fui vendo mais valor e entendendo melhor este sentimento coletivo que toma alguns de arroubo nestas épocas. Vendo a cobertura dos jogos, eu consegui entender a emoção das pessoas cantando o hino de suas nações em um estádio lotado, cheio de estranhos que vão partilhar muitas emoções nos 90 minutos que vão se seguir, sobretudo num momento tão cheio de tensões que vivemos globalmente. Sem querer pesar o clima, mas em algum momento enquanto a bola rolava em campo, cheguei a me perguntar até quando poderemos fazer copas do mundo. Vocês lembram que em 1942 não tivemos, porque o mundo estava em guerra, e os eventos só foram normalizados depois de 1950? Pois é. É o tipo de coisa em torno da qual minha cabeça passa horas girando. E até por isso mesmo, ver as pessoas celebrando nas ruas, os povos se encontrando e fazendo batalhas de dancinhas e de batuques, rindo e se unindo para celebrar de modo pacífico suas origens e etnias me fez pensar o quanto este espírito e este lugar precisa ser preservado nas pessoas. Afinal, não é isso que eu quero criar o tempo inteiro com a minha arte, uma experiência de encontro e de celebração do que somos e de que sobrevivemos?

Talvez você saiba que a Copa de 2026 é a maior da história, são 48 seleções, ao invés das 32 vagas que tínhamos no passado. Isso abriu mais 9 vagas diretas para a África e, nessa, Cabo Verde está fazendo a sua primeira participação. Logo de cara caíram numa chave muito difícil, e conseguiram ainda assim ser uma pedra no sapato dos argentinos. Conto isso porque meu marido me explicou essas coisas outro dia sentados no sofá, e foi só então que eu consegui entender a dimensão das celebrações no dia 03 de julho que houve na minha rua.

Eu moro num bairro com muitos imigrantes africanos, e tenho alguns conhecidos cabo-verdianos. Acho que têm o sotaque mais bonito da língua portuguesa, e olha que falar isso como brasileira é convidar muita gente a se ofender, mas é verdade. Meus ouvidos são pescados como se ouvissem música, porque eles conseguem cantar esta língua que amo tanto como ninguém! E na última sexta-feira, eram suas vozes que ecoavam pela rua, correndo pelos carros estacionados e pelas folhas das árvores. Parei um momento para pensar no que significa para meus vizinhos poderem ver uma trajetória tão bonita numa estréia, ainda mais quando estão longe da terra que os fez brotar. É o tipo de coisa que me enche os olhos de lágrimas.

Me lembrei até de um filme antigo, daquelas comédias que você acha que só vão ser besteirol, mas termina te colocando umas coisas na frente que vale a pena refletir, Jamaica abaixo de zero, que conta a história do primeiro time de trenó no gelo jamaicano, e o percurso individual e coletivo para chegarem onde queriam. Não, eles não ganharam o título, mas fizeram seus conterrâneos se reunirem diante da TV num esporte que sempre passou desapercebido por eles, para torcer por alguns desconhecidos que alcançassem seus sonhos, e isso terminou unindo as pessoas. É um filme incrível, na verdade, que fala sobre performance, cobrança, e também levanta uma questão sensível sobre onde está o sucesso, e afinal, o que estamos buscando com ele, e que algumas vitórias não vão envolver títulos, pódios ou troféus. E quanto mais nossa mente fica aprisionada por esta lógica, mais nos ausentamos de fazer o que é importante para a gente, e ver valor nos nossos projetos.

Eu trago outro exemplo. Entre 1914 e 1916, Ernest Shackleton liderou uma expedição que tinha por objetivo atravessar a Antártida, no Polo Sul. O Endurance, navio que os levava, ficou preso no gelo, as ambições geográficas e científicas foram uma fracasso. Mas com 2 anos de frio, privação e isolamento, Shackleton conseguiu retornar com os mesmos 27 homens que partiram com ele. Nenhuma vida foi perdida. Seu caso é estudado até hoje como exemplo de liderança.

Pensando no filme, no gelo, e na Copa, concluo que às vezes o que queremos e buscamos não tem nome, não tem lugar, nem mesmo uma trajetória pronta; mas tem sempre espaço para descobrirmos uma rota para escrever nossa própria história e conquistar vitórias para as quais ainda não cunharam medalha. E copa não é apenas sobre o título, mas também sobre o que vamos viver com as pessoas à nossa volta.

Mas isso vale para Cabo Verde, que estão desbravando caminhos novos; não para o Brasil, que com a história que tem, tinha a obrigação de ir lá e entregar uma performance pelo menos razoável. Que vacilo foi esse jogo, viu?

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