A Era dos Enterros

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Eudoxia — seleção para leitura

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Domingo fui dormir 3 e meia da manhã porque minha vizinha de baixo acha diboua ficar na varanda da casa dela, que é debaixo da minha janela, conversando até de madrugada.

Hoje eu acordo 10 e meia da manhã porque meus vizinhos de cima parecem gerir um rage room 24 horas dentro de casa, também parece que têm muitos clientes. E a raiva deles vaza por suas paredes e transborda aqui.

Na época do Candinho, houve um domingo em que eu tinha ensaio às 10 da manhã. Na véspera, ou melhor dizendo, horas antes, meus vizinhos de cima em uma de suas sessões terapêuticas, depois de muito arrasta-arrasta, inventam de bater alguma coisa contra a parede ou algo que o valha, 3 batidas seguidas, fizeram isso 2 vezes. Eu lembro, era 1 e meia da manhã. Aquilo me custou algumas horas de sono, vocês já sabem como o gato se comporta. Na manhã seguinte, eu acordei antes do meu despertador que estava programado para as 7 da manhã. E parece que antes mesmo do cérebro inicializar e subir todos os seus firewalls, eu fui até o armário, peguei um martelo, e bati com ele 2 vezes na parede, como quem responde algum código com a mensagem “eu odeio vocês também”. De onde eu venho, tem um ditado, “solução pra doido é doido e meio”. Não solucionei, eles continuam funcionando com seu rage room em plena atividade, bateção a qualquer hora do dia, em geral aquelas que você vai achar que ia conseguir descansar.
Eu já falei que vivo atrás de um canteiro de obras, né? Meia verdade; aparentemente, eu vivo no meio de um. Há 3 anos seguidos eu tenho que aguentar obras à volta, fossem por vizinhos, reforma de trecho da rua, até mesmo quando eu viajei para o Brasil, meu pai estava tendo brigas em seu prédio por causa de uma obra que estava prevista para agosto, mas terminou acabando em março.
Pergunta sincera: por que os engenheiros faltam em massa as aulas de planejamento? Por que é ilusório esperar que uma empreitada que tenha sido planejada e executada por um profissional que deve ter estudado alguns muitos anos para fazer cumpra com o prometido? Engraçado que num mundo cada vez mais apressado e urgente, médicos e engenheiros insistem na contra-mão desta tendência mundial. Em defesa dos médicos, eles nunca estiveram nem aí para horários, qualquer um passou mais tempo nas salas de espera do que em atendimento. Engraçado que como artista, eu tenho que me virar para produzir no ritmo do algoritmo, e aceitar a mão auxiliadora da IA para que eu possa dar vazão ao meu trabalho como preciso, sem qualquer garantia de retorno financeiro; mas eu devo estar delirando quando tenho qualquer expectativa de ser atendida na hora que me marcaram ou que um planejamento seja cumprido. A gente sabe, lógica nunca foi o forte da humanidade, mas o século XXI testa qualquer limite, assim como meus vizinhos.
Quando eu não aguentei mais, pedi ao meu marido que falasse com a tagarela de baixo, porque sinceramente to cansada de sempre meter a cara nessas situações como se a chata fosse eu, e não a pessoa que acha mesmo que não existe mais ninguém à sua volta, ou pior, sabe que existe porque acha que tem o direito sobre o espaço privado e os horários dos outros. Ele argumentou comigo dizendo que era sábado, que deixássemos, mas eu não entendi, eu só preciso dormir em dias úteis? Porque se esta for a regra, eu preciso dizer que também não está rolando pra mim, espremida entre rage room clandestino e o fino ecossistema para onde marteletes e serras circulares migram todos os anos para acasalar.
Eu sou neurodivergente, tenho uma hipersensibilidade que cansa até a mim mesma, isto é um fato, reconheço. E sabendo disso, eu mesma entendo quando as coisas ficam apertadas na minha cabeça e busco meus meios de me regular. Mas eu preciso dizer que no mundo de hoje, não bastam. Eu tenho aqui em casa janelas à prova de som, protetores auriculares, fones com cancelamento de ruído. E eu te pergunto: preciso investir mais em  tecnologia militar homologada para civis para poder viver – e dormir – na minha própria casa? O mundo está cada vez mais ruidoso, em todos os sentidos. E ainda tem gente que sobe montanha com caixa de som na mão para tocar música alta. E eu volto a te perguntar: a minha hipersensibilidade é mesmo a questão num mundo desses, em que o silêncio parece sempre um como convite a ser quebrado para alguns e não mais algo necessário a ser vivido? A tagarela entendeu o recado, desligou a música e se despediu do convidado. E eu ainda tenho que a agradecer por isto, porque a gente sabe que a coisa poderia ir bem para outro lado. Tem muita gente no mundo que faria o oposto se achando engraçada.
Eu lembro de uma frase que Eric Hobsbawn escreveu logo no início do seu A Era dos Extremos: o breve século XX: 

Para os que cresceram antes de 1914, o contraste foi tão impressionante que muitos —
inclusive a geração dos pais deste historiador, ou pelo menos de seus membros centro-
europeus — se recusaram a ver qualquer continuidade com o passado. “Paz” significava
“antes de 1914”: depois disso veio algo que não mais merecia esse nome.

Se a referência te faltar, 1914 foi o início da Primeira Guerra Mundial. Ainda, Hobsbawn de que o século XX teve só uma guerra, que se estendeu até 1945 (o final da Segunda), e que o período entre 1918 e 1939 foi apenas uma pausa entre elas, para que o mundo pudesse se refazer para voltar à batalha, como o intervalo de uma partida de futebol. E isto se prova matematicamente quando vemos que foi o tempo que se leva para criar outra geração de homens para o combate.

Eu não cheguei até o final do livro, é missão para a Eudóxia do futuro, mas eu guardo esta idéia há anos. E me pergunto quantas mais coisas o nosso século XXI sepultou sem que tivesse sequer um marco temporal? Silêncio? Privacidade? Jornalismo?
Eu sou de uma geração estreita, que nasceu no impresso e analógico e viu o mundo se tornar digital e wireless, e cresceu com a internet; viveu suas questões de auto-imagem de adolescência enquanto as redes sociais nasciam. Não há um dia em que não me estranhe com o mundo, em que eu não sinta que aquilo que aprendi e acumulei não me serve para vencer os desafios que crescem à nossa frente. e talvez Hobsbawn também tenha explicado:

A destruição do passado — ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa
experiência pessoal à das gerações passadas — é um dos fenômenos mais característicos
e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie
de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em
que vivem.

A minha geração é filha de um tempo em que as coisas era feitas com qualidade para que pudessem nos servir por um bom tempo, e não que precisassem ser constantemente atualizadas; e parece que esta diferença nunca vai ser vencida. Eu? Eu mesma sinto falta de ter vivido a experiência de paz que já havia morrido quando meus pais nasciam. Em nome do progresso, estamos matando tudo que nos trouxe até aqui, e eu não falo só do meio ambiente. Falo da trama do tecido social, das práticas, dos saberes, dos manteres, e também deste universo subjetivo que nos sustenta, o lugar ocupado por nossas canções, histórias, receitas; este espaço de paredes dinâmicas e sem teto, em que o tempo se contrai e se expande para ocupar diferentes dimensões. E saibam, nós somos tão dependentes deste lugar quanto somos de água, alimento e abrigo. É a minha função me preocupar com isto, eu sou uma artista, este espaço é o meu campo. E por isso eu pergunto mais: progresso para onde? Que raio de sociedade é esta que estamos construindo?
Seres humanos se juntavam porque era mais fácil e seguro viver em grupo do que sozinho. Isto ainda se mantém?

Não é coincidência que as artes vivam um momento tão desafiador. Porque se apoiam neste tecido social em todos os momentos, para serem sonhadas, criadas e materializadas, para posteriormente serem os pilares das memória dos tempos que as trouxeram. É assim porque o ser humano é assim; não existe memória que não passe pelas histórias. A história é a memória.

E estamos nos tornando cada vez mais carentes dos pilares, e para encontrá-los precisamos sempre buscá-los numa tela fria, filtradas por algoritmos e leis cada vez menos claras, mergulhados numa sociedade progressivamente mais estranha que ainda insiste em fingir normalidade.

 

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