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Eudoxia — seleção para leitura

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Desde quarta passada estamos em Lisboa, e há tanto para contar que fica até difícil escolher um assunto ou tema para este post.

Marido passou por uma cirurgia de septo há uma semana, e entre as funções de enfermeira e cuidadora, todo o resto à volta continuou.

Eu terminei não comentando aqui que fui selecionada na primeira fase do Projeto Vortex, um programa de aceleração de carreira para artistas. Estamos na fase de assistir às aulas e responder os questionários, que são liberados toda semana. Errei uma pergunta de bobeira, aquela piscada na atenção causada por cansaço. O que me fez me prometer controlar a pressa na hora de cumprir com as tarefas, coisa que eu deveria expandir para os outros campos da vida. Esta semana ainda, só consegui olhar para as aulas não-concluídas, porque tempo e energia não sobraram.

Também fiz o curso de Escrita Criativa com IA oferecido pelo LabPub, com a Laíze Damasceno, compositora, colega de MCT e mais uma pá de coisas. Ela ainda me concedeu uma bolsa e eu sempre sorrio de volta quando o Universo sorri para mim, logo aceitei. Foi bem legal, mas as aulas iam madrugada adentro nas segundas e quartas, deixando a minha semana toda indo dormir depois das 2 horas da manhã. No dia seguinte à segunda aula foi a cirurgia do meu marido marcada para às 7 AM. Eu tava tão moída que quase pedi à enfermeira para colocar uma outra cama ao lado da dele para mim. Mas precisei me refugiar no shopping ao lado do hospital por algumas horas. Chorei de nervoso e cansaço, mas também vi exposição sobre a Marilyn Monroe, comi um folhada de maçã magro e superfaturado, e comprei On Photography, da Susan Sontag, e ainda Black Mozart em vinil, último álbum do Jon Batiste. Eu estava tão emocionalmente abalada com a privação de sono e o marido na cirurgia que me agarrei ao LP como uma criança com seu bicho de pelúcia para suporte emocional. e depois que cheguei em casa e botei para tocar, vi que o apego era justificável. Que coisa maravilhosa e impressionante que ele criou! Eu sinto que só de ter escutado aquilo já sou uma musicista melhor. Preciso escutar mais. Este álbum merece alguns vários posts só para ele.

Em meio a tudo isso, só uma coisa estava realmente me incomodando. Eu estava longe do meu piano. Eu não tive tempo algum para estudar ou compor, mas sou apegada, preciso da presença dele por perto. Às vezes quando a cabeça está muito barulhenta, sentar nele e dedilhar qualquer coisa faz a poeira interna baixar. Fora o fato de que não consigo dar aulas de canto sem um piano por perto, um golpe pesado no meu espírito e nas finanças. Eu aguento ficar sem dormir, mas tudo tem um limite.

Depois de muita pesquisa nos sites de artigos em segunda mão e comparar modelos e preços, eu comecei a ter fixação em um modelo que vi a uma hora de carro de Lisboa. Fiz as contas das minhas economias e percebi se adotasse uma dieta à base de meias usadas e luz solar, eu conseguia trazer a criança para casa. Eu já havia comido um folhado de maçã superfaturado este mês e tinha um vinil novo em casa, já tinha tido minha cota de luxos, era uma escolha simples.

Depois de dormir menos de 4 horas de quarta para quinta, eu pulei da cama para saber se o vendedor havia afinal confirmado minha visita ao instrumento, e quando vi que sim, todo o cansaço acumulado teve a delicadeza de sair de cena porque havia coisas mais importantes em jogo.

Duas horas de estrada, uma negociação e a ajuda do vizinho para subir com o piano porque marido ainda está de licença médica, chegou aqui o Rolando Júnior, um RP 107, algumas gerações mais novo do que o meu anterior, que agora passa a ser designado por Rolando Sênior.

Eu não podia estar mais feliz com a compra! Foi como sair de um Uno Mille para uma BMW série M, com todo respeito ao Sênior. Ele me serviu muito bem, mas já tinha chegado aqui cansado de algumas batalhas, duas teclas mudas, Ré6  e Lá6. No início não me incomodava tanto, porque eu havia compra ele mais pensando nas minhas necessidades como cantora, não era um altura que eu costumava vocalizar. Mas depois que eu comecei a compor, ter a tônica e dominante da minha tonalidade preferida não era mais viável. Fora que eu queria um timbre melhor também.

Rolando Júnior

Pois bem, Júnior tem ligação bluetooth, metrônomo, 15 timbres diferentes de altísisma qualidade, como aliás é próprio de toda a construção do instrumento. Eu posso gravar o que estou tocando, sincronizar meu telefone para tocar alguma gravação nas saídas do piano enquanto eu toco, transpor, combinar vozes e ainda regular o peso das teclas. Diante de todos esses recursos, tem um ainda que me encanta por mais banal que pareça diante de todos os outros: ele tem um tampo, o que vai proteger minhas teclas de poeira. O dono anterior é um menino que ganhou um piano acústico para tocar e resolveu vender o elétrico com menos um ano de uso. Minha lista de melhores comprar da vida acaba de ganhar um de seus ítens mais valiosos. Foi uma semana sem piano, e foi horrível!

Nós ainda estamos nos familiarizando um com o outro. Eu quis mesmo me dedicar mais a isto ontem, mas à noite tinha aula, teve live com a Kamilla Fialho, e ainda o eclipse lunar parcial que cruzou o céu de madrugada, começando depois das 3 da manhã. Eu jurava que não ia conseguir fazer tudo, mas digo orgulhosamente que estava errada. Fui dormir quase 6 AM, porque o corpo já tinha deixado claro que tudo tem limite. Pelo menos eu consegui ver o ápice, enquanto estava na cozinha de casa com o telescópio, tomando meu chá ao som de Division Bell, meu álbum to go do Pink Floyd.

Tem cansaços que valem a pena.

 

 

 

 

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