
Há 4 dias, Sting tocou para 25 mil pessoas em Figueira da Foz, aqui em Portugal. E eu venho tentando achar as palavras deste post desde então.
Na sexta, antes mesmo de pegarmos estrada para lá, eu já me comportava feito uma criança em manhã de natal, e meu marido comentou “eu não fazia idéia que tu eras tão fã dele assim”. Confesso que nem eu, e isso me fez pensar no que havia nos levado até ali.
Em primeiro lugar, não tem como diminuir a grandeza do Sting para as pessoas que viveram a minha geração. Mesmo sem ter tido nenhum de seus discos, boa parte das suas músicas está marcada no fundo da minha memória, é parte considerável do universo sonoro no qual cresci. Cada novo álbum seu tinha uma expectativa, um frisson, e seu nome virou uma marca de qualidade musical. Somam-se ainda seus posicionamentos por alimentação mais consciente e causas humanitárias, num exemplo de artistas que assumem uma postura e usam suas plataformas para além de sua fama. Definitivamente, não é um artista que possa ser ignorado.
Quando eu vi o anúncio do show dele aqui, comprei porque sabia que ia ser incrível. Ainda mais quando vi que o Dominic Miller, guitarrista que o acompanha há muito tempo e participou da gravação de vários de seus álbuns, ia estar no palco com ele. Eu não dispenso uma apresentação ao vivo, seja do que for, mesmo! Acredito que tudo pode ser uma aula sobre como criar a experiência para o público, e um artista com a estrada dele é o tipo de aula não dá pra perder.
O palco foi montado na Praia do Relógio, com o mar e o horizonte emoldurando uma sexta-feira perfeita. O som estava extraordinário, sinceramente não lembro de nenhum concerto com som melhor do que aquele, incluindo os que vi em ambientes fechados. Eu estava sem protetores auriculares e conseguia ouvir tudo com uma qualidade absurda! Completando o trio, na bateria estava Chris Maas, que tocava na cena de Luxemburgo, onde nasceu, e foi parar olha só com quem. Entregaram tudo em 1 hora e 40 minutos; nenhum dos grandes sucessos ficou de fora, mesmo os de The Police, e ainda teve tempo para canções menos consagradas, todas impecáveis. Eu fui certa de que não ia me decepcionar, mas também não consigo dizer que estava totalmente preparada para o que eu vi.
Sting vem de uma época que a gente vê com dor sumir no horizonte. Mesmo no mainstream, a música era o mais importante, e por isso havia tanto esmero e compromisso em fazê-la. Até porque talento e qualidade eram condições inegociáveis, sem recursos para criar um mito que não se sustentassem em suas próprias pernas. Mas há ainda outro aspecto que eu vejo com saudosismo.
Eu acredito que você pode saber todas as escalas e cadências, dominar cada elemento da música com precisão, mas nada é mais forte do que uma canção. E hoje vejo esta lógica transformada, tudo deve ser feito para encaixar num formato viralizável, senão é perda de tempo e dinheiro. Oh, ranço!
Canções levam tempo para crescer. São templos imateriais que as pessoas ocupam, e carregam para suas vidas, seu cotidiano, suas viagens de carro, seus encontros, seus silêncios, seus momentos de coração partido, como um fio costurando suas vidas juntas e dando sentido, como um corrimão onde elas buscam apoio para achar caminho e seguir em frente. Sting talvez seja um dos últimos grandes arquitetos de canções em atividade, e não sabemos ainda por quanto tempo. Além de seus 75 anos, exibindo uma forma invejável, o mundo vem mudando de maneira definitiva e assustadora. Quanto mais tempo ainda teremos para voltar a esses templos suspensos?
E lá na Praia do Relógio, um público de 25 mil pessoas se juntou para fazer com que as paredes vibrassem. Ele abriu logo com “Message in the Bottle” e pegou todo mundo quente desde o início. O público cantou junto os refrões, por vezes espontaneamente, por outras puxado pelo próprio artista. Quando as primeiras notas de “Shape of My Heart” foram tocadas, a platéia respondeu com um “aahn!” em uníssono. Tem uma parte de mim que vai sempre estar neste momento, reagindo junto, mas também maravilhada com o que foi criado nesses 23 anos desde o lançamento de Ten Summoner’s Tales, em que Sting é só uma pequena parte, uma fagulha que inicia uma chama.
Eu me maravilho com os efeitos de um concerto. Há a mobilização, a empolgação, as medidas logísticas e os rituais de preparação para o grande dia, a romaria, e finalmente o evento. Mas há também o depois. Em como os dias que se seguem são diferentes, em como ocupamos o próprio peito com a lembrança do que foi visto, ouvido e vivido; em como carregamos estas histórias pela vida e elas nos iluminam.
A gente vai para sempre dizer que Sting fez um show incrível, o que não é nenhuma mentira, mas não traduz toda a verdade. Há uma legião de mãos construindo aquele espetáculo, engenheiros de luz e áudio, roadies, produtores, seguranças e funcionários da limpeza. E há ainda cada um dos pagantes. Um show é feito em grande parte pelo seu público. Santaolalla mesmo disse isso em seu concerto aqui no ano passado, numa casa lotada em plena segunda-feira. Podemos dizer que o mérito dele é fazer com que tantas pessoas, que não se conhecem, que são diferentes, distintas e caóticas, se encontrem para levantarem e ocuparem juntas esse templo que elas compartilham e carregam dentro de si.
Este, para mim, é o grande poder de uma canção. Isso que eu quero construir.
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