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Eudoxia — seleção para leitura

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Há 9 anos a minha vida mudou.

Aliás, sendo justa, aquele ano foi um susto só. 2017 foi uma montanha russa bem esquisita. No início daquele ano, eu tinha insônias constantes. Muito da minha vida se alterou com elas.

A primeira foi em 2008. Eu estava começando a entrar na Tradução, estava na PUC-RJ, onde também fiz 5 anos de pesquisa em Sóciolinguística; já tinha pegado alguns trabalhos com tradução técnica, e em duas semanas traduzindo o manual de uma placa que pesava mais do que um bebê, eu consegui comprar meu primeiro piano. Tudo corria bem, até aquela voz me acordar no meio da noite com uma pergunta insistente:

-Até quando você vai fingir que você não é isso que você sabe que você é?

Eu fui arrancada do meu sono por esta pergunta como um despertador algumas vezes. A faculdade de música, UFRJ, estava trancada e eu começava a me resignar no fato de que uma carreira como tradutora ia ser ótimo para mim; tinha tudo para ser, eu realmente gostava de traduzir, me levava para coisas que eu amava: poesia, dicionários e idiomas. Mas a voz não quis nem saber. Então eu voltei às aulas na Rua do Passeio, depois de muito choro e dúvidas existenciais, naturalmente.

A insônia de 2017 me mandava ir embora, sair do país. Eu via que o Brasil ia entrar numa fase muito sombria, e isso me assustava; mas hoje, olhando para trás, não credito tudo à uma mudança política, por pior que tenha sido.

Aquele era o segundo ano sem que nenhum trabalho ou projeto aparecesse, nem concerto, nem ópera, nem reforço de coro, nem audição. Eu seguia dando aulas de canto e dava os primeiros passos como locutora, narrando alguns livros; fora isso, N A D A.

Fora isso, minha vida pessoal tava um lodo. Em 2015, me casei de papel passado. Na época, eu tinha um amigo – tinha, do verbo sai pra lá – que havia se casado antes de mim e dizia sempre que o primeiro ano do casamento era o mais difícil. Eu tenho dois arrependimentos na vida, aquele casamento e ter acreditado naquelas palavras. Passei o segundo ano todo do meu casamento esperando aquilo melhorar, mas no fundo eu tava me retirando, falando menos, dividindo menos, apostando menos. Sabe aquela história que dizem que o problema é quando a mulher pára de falar? Nessas palavras vocês podem acreditar.

Desde o ano anterior eu tava buscando um mestrado no exterior. Em 2016, apareceu o contato para uma universidade no Texas. Eu cheguei a fazer exames de proficiência e tudo, mas o combo criado pela eleição do Trump, as anuidades caríssimas da universidade que ainda cobrava em dólar e ainda um marido capaz de jogar areia em qualquer oportunidade de trabalho que aparecia foi implacável em melar o plano. Então virei minhas buscas para Europa, e uma oportunidade começou a aparecer em Portugal. O “amigo” dizia que eu ia perder a viagem e o dinheiro, porque vinha para um país sem tradição em ópera e sem muito o que fazer. Mas naquela altura, um novo começo era tudo o que eu queria e precisava, desesperadamente. Eu pedi o divórcio, que aliás foi a parte mais linda daquele casamento. Meu ex-marido foi mais decidido em sair daquela relação do que jamais foi para entrar. E eu nunca o agradeci por isso.

Eis que um dia, respondendo um story no Instagram, o Bruno Sa, antigo conhecido e baita músico, me pergunta se eu gostava do Operation: Mindcrime. O álbum completava 30 anos e haveria dois shows no Brasil comemorativos, apresentando ele na íntegra. “É um dos álbuns que mais ouvi na vida”, não era mentira nenhuma, ficava meses no CDplayer do carro no repeat.
“Você cantaria com o Geoff?”

Pensem comigo, eu era uma cantora lírica, estudei óperas inteiras do Handel, botei todas aquelas coloraturas no lugar, me dedicava exclusivamente a repertório erudito, nunca havia cantado com microfone, então eu dei a única resposta possível:
– Com certeza, vai ser um prazer.
Eu vi o cara ao vivo aos 16 anos, eu ia deixar uma chance dessa passar?

Foto de Marcos Vinicius Trojan
Ensaios no Greenhouse Studios – 2017 São Paulo, Brasil

Isso foi em junho; e os show – 19 em SP, 20 em BH – eram em agosto. Cheguei em Sampa alguns dias antes para os ensaios, que aconteceram no Greenhouse Studios. De cara eu adorei o pessoal de lá. No primeiro ensaio, o produtor, Gus Soularis, me pergunta se eu precisava de alguma coisa. “Vocês têm qualquer orientação para segurar microfone?” Eles riram em coro, me acharam super engraçada. O problema é que eu estava falando sério, tive receio de cantar com um troço daqueles, medo da voz estourar, da voz não chegar, de dar microfonia. Chegando a hora do vamo-vê, se eu tive alguns desses medos, não lembro. Você já sabe, mas eu digo mesmo assim: eu amei cada minuto daquela experiência. Quando me perguntam se eu fiquei nervosa na hora de entrar no palco com ele, eu digo que fiquei tão nervosa quanto um labrador quando você balança a coleira na frente dele e chama para passar.

Chorei cada uma das  8 horas do caminho de Minas ao Rio. Na semana seguinte eu assinava meu divórcio. E 3 meses depois eu me mudava para Évora. Era demais para minha cabecinha processar aquilo tudo. O susto que 2017 me deu demorou anos para passar, mas isso não é uma reclamação.

No ano seguinte cantei cantata de Vivaldi, ópera de Monteverdi, fui ao São Carlos, o teatro municipal de Lisboa, para um concerto de árias, e cheguei a terminar o Mestrado, com honras até. Mas eu não consegui me ver mais só com uma cantora lírica, aquele bicho de cantar rock realmente havia me marcado e, ao contrário de qualquer expectativa que eu tinha, voltei a cantar com ele por mais 4 anos, passando ao todo por 9 países. Eu fui para no Rock of Ages na Alemanha, peguei carona com o Derek Fish, conheci o Sascha Paeth, toquei com o Felix Bohnke, subi no mesmo palco que Dave Weckl e Glenn Hughes subiram, toquei na mesma noite que o Paradise Lost, cantei com o Angra, fui entrevistada no Amplifica pelo Rafa, e mais coisas até do que eu sei contar.

 

Ok, tem uma que eu conto. No show de Belo Horizonte, Susan Tate me pede para ouvir algo bonito. Eu cantei “Se pietà”, ária da Cleopatra em Giulio Cesare, ópera do Handel. Eles adoraram, eu consegui disfarçar os joelhos tremendo. Mais tarde, depois do show, socializando no lobby do hotel, me vejo diante do Billy Sheehan. Disse o quanto havia gostado do show – eu faço isso com todo o show que vejo, penso sempre que to cumprimentando um colega, e que eu mesma gosto quando colegas vem com parabéns depois de uma apresentação. Ele me elogiou, disse o quanto gostou do que fiz no palco, e eu agradeci imensamente:

– Ah, muito obrigada mesmo! Eu me sinto um peixe fora d´água porque sou cantora lírica, tudo é meio novo para mim.
– Ah, sim, eu ouvi você cantar. Eu olhei para o meu shitty bass no colo e fiz “eww”!
-Cala a boca, vai, você é o Billy f* Sheehan!
-É, mas eu não faço o que você faz, o que você faz é mágica.
Eu não me contive, “Is this real life?”, soltei olhando para o infito. Ele riu, me deu um beijo na testa e se despediu de todo mundo.

Subir num palco de rock mudou como eu percebia tudo o que fazia, performance, palco, público; eu passei a entender que eu não canto notas, eu crio uma experiência para as pessoas, algo que vai alegrar seus dias e que vai marcar suas vidas. Mas acima de tudo eu passei a me ocupar de maneira diferente, entendi que quando eu subo no palco, ele é meu, como uma nave para levar numa jornada da qual as pessoas vão levar pra vida, e que meu trabalho é estar lá por elas.

Ver a fidelidade do público com o Geoff é algo de virar a cabeça. Pessoas que cruzaram a fronteira da Hungria para vê-lo, outras que tiraram férias para poder seguir os shows pela Alemanha, fãs que pagaram para estar no tourbus com a banda, vivendo a rotina pesada e intensa de uma turnê. Minha experiência com ele foi ver que eu estava fazendo minha música da maneira errada, pensando da maneira errada, focando nas coisas erradas; eu me percebi uma artista muito maior do que eu me dava a liberdade de viver. Subir no palco com ele cutucou com ferro quente um lado meu que tava adormecido, que a vida e as pessoas à minha volta me fizeram acreditar que nunca haveria espaço para existir. Geoff foi um deus ex-machina na minha vida.

DIFA Photography by Faizel Joemrati | Amersfoort | info@difaphotography.com

Digerir todos esses acontecimentos levou tempo, muita terapia, auto-ajuda, páginas matinais, EMDR, cerimônias de ayahuasca, crise existencial e ondas de ansiedade que pareciam mais imóveis do que uma montanha. E em volta de tudo isso, a vida mudava. Em Portugal, eu me casei de novo, porque é da esperança vencer a experiência. Mesmo antes de assinar qualquer papel, eu me vi em uma família, coisa que nunca tive no meu primeiro casamento. No estúdio onde ensaiamos eu ganhei um hamburguer em minha homenagem (fico devendo esta história aqui), já fiz masterclass, gravei single, videoclip e um EP, e to sempre me perguntando que mais posso ir lá inventar; Gus não é só um parceiro de composição, virou dos melhores amigos que eu tenho na vida, a quem devo boa parte

DIFA Photography by Faizel Joemrati | Amersfoort | info@difaphotography.com
Fluor – Amersfoot, Holanda.

do que produzi nos últimos anos. Eu me aventurei a escrever minhas canções e hoje aposto todas as minhas fichas na visão que eu tenho desta artista que passou mais de 3 décadas presa.

 

Minha caminhada com o Geoff acabou há 3 anos, não foi da maneira mais legal, confesso, mas estava muito claro na minha cabeça que eu não podia ficar contando só com ele para me confiar uma música por noite e eu chamar de carreira. Por mais incrível que eu adorasse e nunca esquecesse do privilégio que era, era pouco pra mim, e eu precisava honrar esta fome que eu tinha.

No ano seguinte, eu registrei a marca Eudoxia. Mas aí é assunto para outro post.

 

 

 

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