Esta semana eu tive dos compromissos que mais gosto na vida: buscar meus livros novos que na verdade são velhos. Eu, muito chique que sou, tenho uma personal alfarrabista, a Soledade, responsável pela Quimera Livros, que vende “livros com história”. Graças à ela, eu tenho uma edição belíssima com a obra completa do Edgar Allan Poe, a antologia poética do Frank Zappa, o tratado da Convenção de Berne de 1911 na qual se baseia toda a legislação atual de Direitos Autorias, um dos livros sobre canto e voz do Victor Maurel ainda em francês; e desta vez trouxe para casa a prmeira edição de Still I Rise da Maya Angelou, Ai Weiwei’s Blog, e ainda Estudos de Poesia Brasileira que ganhei dela. Além de já ter me arranjado algumas das maiores pérolas que guardo, ela está sempre na missão de conseguir mais, porque eu estou sempre adicionado nomes na lista “se achar, é meu”, como Nazim Hikmet, Ai Qing, e mais alguns que eu nem lembro mais mas eu sei que ela tá na busca.
Cada encomenda é embalada com todo o carinho e inclui um marcador de livros feito pela sua mãe, que é quem me traz as minhas encomendas quando vai visitar a filha, a mesma artista que deu meu quadrinho que está na parede de The Nest, dona de um estilo sem igual e de uma casa cheia de charme e autenticidade. Ir à Conceição é caminhar pela minha parte favorita de Lisboa, ser recebida com uma mesa de chá feita com amor e porcelana fina, conversar e rir sobre a vida, e voltar pra minha casa sempre com mais alguma coisa que ela insiste que eu leve, seja bolo, óculos ou renda, além das minhas novas aquisições. Sabe quando é o dia daquela sua encomenda finalmente chegar? Então, eu sinto dizer que eles nem são os melhores dias, perderam toda a graça depois que eu sentei na sala da Conceição pela primeira vez.

Eu destravo umas preciosidades na vida que não há dinheiro que compre. Não me pergunte como, elas só acontecem, e eu recebo com alegria.
Um dos meus projetos de vida é construir uma biblioteca. Um acervo abrangente que fique de legado para que mais pessoas no futuro possam usufruir. Mas da onde vem isso? Não sei dizer, acho que em algum momento eu simplesmente reconheci a minha amizade estreita e co-dependência com os livros.
Eu me lembro da primeira biblioteca que entrei na vida. Era a da escola, vazia, silenciosa, com a luz entrando pelas janelas e dançando naquela poeira suspensa, parecia um oásis no meio daquelas salas e corredores onde ecoavam meus coleguinhas aos berros. Eu não me lembro de ter gostado um dia sequer de ir para a aula, mas ali eu vi um lugar onde era agradável ficar. Havia livros na minha casa também, fui encorajada à leitura, mas estar cercadas por eles era diferente, tem uma música própria. Décadas depois, entrar numa biblioteca tem a mesma sensação daquela manhã que era pra ser só mais um dia de escola como todos os outros.
Desde sempre eu tive uma inclinação, um respeito e uma reverência a eles que ninguém me ensinou ou explicou, bastava as suas companhias. Mais ainda, eu acredito em livros, como entidades mesmo, que fogem de qualquer racionalização. Livros te encontram, e conseguem pousar na sua vida no momento certo, não antes nem depois. Eu consigo apontar alguns livros que vieram responder perguntas antigas, que carreguei como se fossem pedreiras intransponíveis, até que de repente algum título que me chamou a atenção sem motivo aparente me trouxe as respostas. Neste rol, posso falar dO Caminho do Artista, Effortless Mastery, Escassez, Frankenstein, Creative Quest, Cem Anos de Solidão… acredite, esta lista podia ser muito maior.
Por vezes, eu só paro na frente da minha estante, corro os olhos pelas lombadas sem a menor pretensão, vejo quem me atrai, estico a mão e abro numa página ao acaso; e lá está algo que eu precisava mesmo ler naquele momento. Não me peça para explicar, também não quero te convencer de nada, eu só estou falando do que vi e vivi algumas vezes. Mas é impressionante como já comentei isso com algumas pessoas que concordam com cada palavra, confirmam que essas entidades têm mesmo este dom. Por isso também que é um pouco difícil recomendar muito livro para os outros, as pessoas podem até ler as mesmas páginas que eu, mas não necessariamente vão estar no momento certo para aquele encontro. Acontece, cada um tem seu rumo, né?
Acho que daí vem a minha vontade de reunir o meu acervo, eu quero estar sempre na companhia deles. Uma estante cheia de livros não é somente um monte de papel, é um jardim com pássaros que vão trazer as canções que você precisa ouvir, ou um portal que pode se abrir para você encontrar as respostas ou perguntas de que precisa. A solidão deixa de ser algo assustador e passa a ser uma chance para mergulhos transformadores.
De novo, não quero convencer ninguém à nada, mas como eu posso duvidar dos poderes mágicos dessas criaturas de papel quando, além de tudo que elas me oferecem, ainda me trouxeram a sorte de dispensar o serviço dos correios com mesa de chá, conversas valiosas e risadas sinceras? Eu acho que os livros sabem o caminho. Livros são o caminho. Precisamos segui-los.
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