Diretamente de The Nest, meu estúdio entre os sobreiros portugueses, eu escrevo.
Chegamos aqui no sábado, exilados do caos que se instalou na minha vizinhança. Minha vida é basicamente dividida entre cá, terra onde meu marido nasceu e Lisboa. Quando eu me mudei para Portugal, caí em Évora para fazer meu mestrado, morei lá durante um ano e meio até me mudar para Lisboa, mas minha relação com este pedacinho de terra ficou. E digo isso com muita gratidão. Aqui eu aproveitei um quarto fechado durante mais de 20 anos e montei o The Nest, meu estúdio e artist cave.
E lá se vão 3 anos desde que tomei o quartinho para mim, e me tornei uma pessoa infinitamente mais feliz desde então.
The Nest é lugar especial, aceita todo o tipo de coisa, tintas acrílicas, tatame no canto, quadro branco, instrumentos, puff vermelho, desenhos colecionados ao longo da vida, e luzes, de todas as formas, mas de preferência as coloridas. Quando eu as acendo, siginifca que estou trabalhando.
Só que tem um twist. Se os verões do Alentejo conseguem ser de dias longos e ensolarados, os invernos são ingratos, nem tanto pelo frio, mas mais pela falta de isolamento das casas, coisa bem típica daqui, o que torna impraticável ficar no estúdio.
Eu sempre fui de contar os dias para os invernos acabarem. Minha bateria é carregada pelo sol, e o combo feito por frio, dias curtos e muito poliéster é demais para meu humor. Então de 3 anos para cá, o fim do inverno não é só poder abrir a janela, tirar as roupas pesadas e ter luz do dia, é também poder ficar aqui à larga, dedicada às horas de procrastinação que ser artista me exige.
Quando voltei para cá desta vez, eu fui me dando conta que The Nest tem seu tempo, suas estações, suas próprias fases, e se por um lado eu detesto ter que manter meu cantinho fechado meses a fio, começo a me fascinar em ver que a artista que abre a porta no início da primavera é diferente da que fechou-a no ano anterior.
É bonito também ver como ele vai sendo melhorado, cada ano ganha um elemento novo, um novo recurso, ou até uma nova paisagem. Este ano já ganhou um espelho de corpo inteiro, lustre, o quadrinho feito por uma amiga, e também um outro feito por mim. O plano ainda é trocar minha mesa ( eu escrevo sobre o pé de uma antiga máquina de costura) e trazer um piano para cá para poder estudar e compor melhor (entra logo, cachê!!!).
Mas a mágica não está apenas no que vai dentro dele. Sua única janela dá para o quintal interno da casa, onde tem as plantas que foram da avó do meu marido, e uma visão clara para a porta de entrada da casa, onde há um banquinho sob as videiras que Jimi neto gosta de deitar para monitorizar o movimento da rua. Às vezes eu pego um chá e me sento lá com ele para ver as cores do céu alentejano mudando ou observar as andorinhas no final da tarde. Às vezes, ainda, só porque eu posso, eu vou pra lá no meio da madrugada para ver se encontro a palavra que está faltando pro meu verso por ali.
Cada detalhe aqui tem uma história. E no meio deles, a mágica vai acontecendo, com espaço para respirar e ressoar. Desde que cheguei no sábado, consegui ir correr, quebrando um jejum mais longo do que consigo me lembrar; terminei de ler o Gilgamesh, 79 páginas que sentaram tempo demais na minha estante; fiz uns testes aí com tinta acrílica (não, dessas fotos vocês não precisam); toquei guitarra, fiz os exercícios de voz e songwriting e hoje até fechei com um designer para dar um trato no blog. Fiquei feliz!
Sim, verdade, é extremamente difícil sair daqui; mas hoje não vai ter jeito, voltamos para Lisboa esta semana. E desta vez eu vou sem reclamar (não, eu vou reclamar um pouco sim, porque sei que a obra continua lá atrás do meu prédio como se fosse a sonorização de um filme de terror), porque na sexta seguimos para ver o show do Sting aqui em Portugal. Sim, ele mesmo, um dos caras mais O Cara da música. Estou esperando este show desde o ano passado quando comprei os ingressos! E é só por isso que, desta vez, eu volto convicta para aguentar martelete e betoneira. E também porque sei que assim que der estamos de volta.
Aproveito e aviso também que por causa de tão nobre motivo, não espere retrospectiva esta semana. Beijos
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