The Nest 2.6

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Eudoxia — seleção para leitura

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Eu não planejava ter ficado tanto tempo longe daqui.

Estamos no Alentejo, e na semana que chegamos, o vizinho entrou em obras. Lógico que isto envolveu mais de uma semana de uso intenso de martelete. Eu penso em escrever um filme em que um casal pacato é assombrado e perseguido por obras, um filme de terror que não dá para ouvir a trilha sonora porque é só barulho de obras, a protagonista basicamente xinga operários e engenheiros, o casal foge, mas por algum motivo que a trama não tem como explicar, as obras sempre vão atrás deles. Acho que ninguém fez isso até agora.
Na semana passada eu me refugiei em todo e qualquer lugar, loja do chinês, mercado, mirante, praia; toquei música em alto volume para disfarçar a barulheira, mas os meus nervos sabem bem o que se passa quando a vibração daquele quinto cavaleiro do Apocalipse chega pelo chão.
E ainda assim, eu conseguir fazer todas as mudanças e faxinas necessárias no estúdio e deixá-lo do jeito que eu queria! Desta vez, eu trouxe o piano, algo que faltava muito aqui, para estudar e compor. O cachê ainda não entrou, mas eu não pude deixá-lo em Lisboa em silêncio. Francamente, não tem como The Nest estar completo só as 5 oitavas do teclado que um colega me deu há alguns anos, apoiado na estante, numa posição ruim. Só esta mudança já estava ótimo, mas ainda tinha um problema: a minha mesa.

Aqui as coisas são majoritariamente aproveitadas. Estamos numa casa antiga, cheia de antiguidades, e toda semana descobrimos algo novo/velho em arqueologia doméstica. The Nest nasceu de uma necessidade antiga de ter meu canto para trabalhar, o que me levou a abrir um quarto isolado que estava fechado e inabitado há uns 20 anos, pelo menos. Nada muito calculado, foi de uma faísca nas idéias, quase um grito. Saem cama, poeira e colchão, entra um pé de máquina de costura antigo, que conto nos dedos de uma mão quantas vezes vi um desses na vida. Lindo, charmoso, retrô, com duas gavetinhas no canto que são extremamente úteis, mas tudo numa altura cruel, que moeu minha coluna em alguns serões de songwriting.

E isso se tornou um problema sério quando as dores na lombar começaram a limitar seriamente quanto tempo eu conseguia ficar sentada escrevendo. Margaret Atwood recomenda a qualquer escritor que se dedique à prática de alongamento porque da boa saúde da coluna depende a nossa resistência na escrita, e eu finalmente entendi na pele o que ela recomendou. “Black Queen”, música do próximo álbum, me levou praticamente o verão de 2025 para escrever, foi uma letra trabalhosa, mas eu me pergunto quanto disso foi dificultado pela falta de ergonomia das minhas condições à época. Era, portanto, uma outra mudança que me pedia urgência.

Com dois cavaletes improvisados produzidos por uma marca de ferramentas, uma prateleira antiga feita pela madeira que o cupim ainda não terminou de comer e um plástico grosso que me deu 3 choques de eletricidade estática na hora que fui comprar, eu tinha uma mesa mais confortável.

Não, não é exagero que levei choque, 3. O plástico é vendido a metro, exposto num suporte metálico sobre rodinhas. Fui ajudar a funcionária a puxar a medida que eu queria, aquilo mede 1,40m de largura, e aí foi uma show de eletricidade estática e risadas no corredor da lojinha do chinês.

O resultado já me salvava a coluna, mas me colocava virada para uma parede em branco e não mais para a minha janela. Como se escreve assim, meu deus? É tão grave quanto largar os cadernos e escrever poesia direto no teclado. Oh, os tormentos de uma artista! Eu já estava começando a ficar desolada, até que sábado, meu marido e herói chega com dois cavaletes que achou na loja de artigos para casa e construção, e parece que foram feitos pensados para este canto. E então todos os planos de leitura que eu tinha foram adiados porque havia muito trabalho pela frente. Eu lembro, sentada no meio do redemoinho que havia passado pelo estúdio, sabiamente disse:
-Isto é uma missão para A-ha.
E graças aos 4 primeiros álbuns do trio norueguês, consegui terminar tudo antes do anoitecer.

Orgulhosamente, eu te apresento Mega Desk.

Meu espaço dobrou e a coluna está feliz. Acreditem em seus sonhos, é só o que consigo dizer!
Mas calma que não foi só isso.

Depois do quadrinho do JSB, eu ainda tinha uma outra idéia para materializar: o Coração Flamejante. Por causa das 4 camadas de verniz acrílico e minha nula prática com o material, ele demorou mais do que eu imaginava mas, curiosamente, ficou pronto quando todo o resto entrou no lugar. Como disse Ronnie Von, “significa”.

Eu decidi incluir uma prateleira nova, já que uma estante que ficava atrás da porta voltou à sua missão original de organizar os livros que estavam na casa. Também inventei de comprar uma telas pequenas para fazer umas aventuras com tinta acrílica, e terminei gostando do resultado. Rolando, o piano, ficou sob a foto de mamãe, como tem que ser.

Quando terminei, fiquei sentada ali algum tempo em silêncio, olhando à volta com cara de criança feliz, a mesma cara de quando terminei de montar ele na primeira vez em 2024. Eu acho fascinante como este cantinho consegue me colocar neste estado a cada ano, com cada versão que ele assume.

Como eu disse já uma vez, cada coisa aqui dentro tem uma história, e com o tempo, eu prometo te contar cada uma delas. Mas não agora.

Agora eu ainda tenho que lidar com outra grande empolgação: o eclipse solar de 2026.
Desde o mês passado eu estou em contagem regressiva para este dia, já montei até roteiro para não perder nenhum dos 4 fenômenos astronômicos que o dia 12 de agosto vai trazer. Eu não trouxe só o piano para cá desta vez, trouxe também o telescópio!! Torça para que eu tenha fotos boas, eu vou dividí-las aqui contigo.

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