Eclipse solar – EU FUI!

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Eudoxia — seleção para leitura

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No mês passado eu já tinha começado minha contagem regressiva, e o eclipse foi só um dos eventos astronômicos no dia 12.

E eu me encontrei nas condições perfeitas para aproveitá-los, dias de céu limpíssimo no Alentejo, um dos melhores lugares do mundo para observação, em plena lua nova; sem sombras, sem luz. Eu fiz a única coisa sensata: me decretei feriado. Não é que eu não tenha feito nada – isso é algo que minha terapeuta me proibiu de dizer, eu estou sempre fazendo muita coisa, e me colocando muita pressão para ser produtiva e não perder tempo. Mas na tão sonhada quarta-feira eu priorizei estar bem para observar o céu nas horas que importavam, e foi o que eu fiz.

Antes do sol nascer, havia um alinhamento de seis planetas que me fez acordar às 5 horas da manhã. Apesar de todo o sono acumulado pelas aulas de madrugada do MCT combinadas com o barulho das infindáveis obras, eu pulei da cama como uma criança na manhã de natal. Caminhando pela estrada, eu me deparo com Órion gigantesco na linha do horizonte, o que já me deu a sensação de que havia tomado a decisão certa. É provável que você não saiba, mas eu tenho a constelação de Órion tatuada no ombro direito, é uma longa história, fica pra um outro post, mas sim, levei pro pessoal; você também levaria. Ainda mais quando você está em pé no meio de uma estrada vazia, olhando para um evento singular. A única companhia que tinha eram as corujas que cruzaram o céu naquela hora, coisa que não há como precisar porque isso depende de quantas sombras você consegue perceber cortando o manto celeste. É fascinante o quanto são silenciosas. Eu localizei alguns planetas e até vi alguns meteoros cruzando o céu. Antes que você pense que meu conhecimento astronômico é o de um marinheiro persa, não, eu uso o app da Star Walk para me localizar, recomendo bastante. Quando o sol nasceu era hora de voltar para cama.

Mas a saga mal havia começado.
Durante o dia, eu tentei me ocupar, mas é lógico que um olho estava sempre no relógio. Eu fui ao mercado atrás de suprimentos para o grande evento e deixei tudo a postos de que eu precisava, telescópio, máquina fotográfica e um cooler com cerveja geladas, essas eram para o meu marido. Sim, apesar de já ter feito cerveja e atualmente ter uma microprodução de vinho, às vezes chego a ficar mais de um ano sem beber. Se eu quebrar o jejum, no dia seguinte uma dor de cabeça me diz que não foi uma boaidéia.

Antes das 6 da tarde, eu já estava com tudo pronto para sair. Fomos ao mirante e armamos o telescópio perto de uma das mesas de picnic. Eu tenho um Bresser, ganhei de presente de 2 anos de casamento, e nem eu fazia idéia do quanto queria um telescópio até ver aquela caixa. Quando eu percebi que ele vinha com um filtro solar, pirei! Naquele mesmo dia eu chequei quais era os eventos astronômicos por vir; então você consegue imaginar o tamanho da minha espera.

Fim do eclipse junto com o por do sol. O sol aparece atrás das árvores do horizonte, com uma mordida da sombra da lua.

Conforme a tarde foi passando, chegou a formar fila para espiarem pelo meu telescópio. Da próxima vez, eu vendo ingresso. Tirando o público não-pagante, eu passei a maior parte do tempo com o olho fixo pela lente, observando algumas manchas solares e a própria sombra da lua se movimentando; eu curti cada minuto.

Faltava ainda o último evento, o pico das Perseidas, que ocorreu no meio da madrugada. Maridão e eu fomos sentar na estrada com cadeiras de praia para poupar o pescoço. Estava lindo, mas confesso que não fomos resistentes para esperar o ápice, previsto só para a madrugada; o sono pesava, e se continuássemos lá era provável que os mosquitos arrancariam até a última gota de sangue que tínhamos. Mesmo assim fui dormir feliz e encantada com tudo que havia visto. Como assim não foi feriado nacional?!

Mas depois li algo que não posso desmentir: parcial não é total. Ainda que a experiência tenha sido bem impressionante, com aquela luz onírica causada pela ocultação de mais de 90% do sol, por aqui faltaram aquelas meia-luas nas sombras, a coroa solar, o crepúsculo em 360° e o vento de eclipse. Por mais que eu tenha curtido ao máximo toda a experiência, bateu aquela invejinha das pessoas que estavam na faixa da totalidade. Dizem que viver sem ver um eclipse total é como morrer sem se apaixonar. E eu acredito em cada palavra.

Mas não estou reclamando, estou planejando, como um amante suspirando pelo ser amado. Há mais dois eclipses totais previstos para os próximos anos, e desta vez eu não vou conter meus desatinos de paixão, vou buscá-los onde estiverem. Já começo a estudar rotas, me programar e tentar convencer meu marido a alugarmos a auto-caravana da minha amiga, a mesma que usamos para ir ver o nascer do sol em Sagres no meu aniversário, há 4 anos. Se tudo der certo, até lá já sou uma fotógrafa melhor com um equipamento capaz de fazer fotos astronômicas.

Como cantou Carmen ao seu toureiro, Il est permis d’attendre, il est doux d’espérer.

 

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