Foi meu aniversário, talvez você já saiba.
Todo dia 05 de outubro. O deste ano foi tenso. É preciso ser um yorkshire de colo de nome Nicky para estar com a cabeça tranquila no dia seguinte a ver Flávio Rachadinha como candidato favorito à presidência. Não me encaixo nesta categoria.
No dia 03 eu fiz uma live no Instagram conversando com meus seguidores e quem mais quisesse entrar, para dar as caras, comentar o que eu vim estudando nos últimos anos e dizer algumas das coisas nas quais eu venho trabalhando. Naquele dia eu falei do Grupo do Artista Solo, uma comunidade que pretendo montar para artistas que não encontraram bem sua turma. Uma idéia que me animou mesmo, acho que no fundo todo mundo cabe ali.
Só que o que se passou no dia 04 me fez não ter espaço mental para mais nada.
Quando o pai do Rachadinha, o Coisa Ruim, foi eleito, eu já estava em Portugal há um ano. Ao receber a notícia das apurações, entrei em choque, soltei 3 comentários cínicos e fingi que tinha cabeça para dormir. No dia seguinte, diante de uma frustração cotidiana, eu tive uma crise nervosa. A minha sorte é que meu namorado na época, ao ver meu estado no domingo à noite, despretensiosamente decidiu adiar um pouco a sua volta para casa. Ele só partiu na terça. Não à toa eu o promovi a marido 4 anos depois.
Naquele dia, eu xinguei, esbravejei, amaldiçoei e chorei como poucas vezes fiz na vida. E fui tomada por uma decepção com o meu povo que deixou aquele gosto ruim na garganta por um bom tempo. Naturalmente que boa parte disso passou em 2022. Mas a possibilidade de sentir aquilo tudo de novo é assustadora, tanto que ganhou nome nas redes: psicose eleitoral.
Sim, eu sou fã do Lula, mas não fui sempre assim. Aham, com aquela parte de que tenho minhas críticas e tals, mas não há meios de negar o valor da sua trajetória e do estadista que é. Quando ele tomou posse de novo em 2023, depois de 580 dias na cadeia, eu já tinha acumulado 6 anos fora do Brasil e comecei a me dar conta da sua dimensão. O século XX teve Mandela; o século XXI, Lula.
Eu nasci em 1981, num país do terceiro mundo que vivia seus últimos anos de ditadura, com uma inflação galopante que fazia com que os preços nos mercados precisassem ser atualizados diariamente; desigualdades sociais perversas, mortalidade infantil altíssima, metade da população sem acesso à água potável e uma legião de analfabetos. Eu peguei a fila da carne, congelamento das poupanças, tabela da SUNAB, UFIR. Ter um freezer em casa era questão de economia doméstica, porque permitia comprar e estocar comida, driblando – mas não muito – a alta constante dos preços. O Brasil só aparecia em filmes como destino de fuga para ladrões de banco. O brasileiro era o primeiro a falar mal do brasileiro, e soava ser crítico pensante dizer que “o brasileiro”, sempre na terceira pessoa, era um povo vagabundo, ignorante, avacalhado, mau caráter, que não quer trabalhar. O maior orgulho que alguém poderia ter era ser descendente de europeus, acumulando pontos extras quanto mais brancos fossem os antepassados ou se você fosse forçado a sempre soletrar seu nome ao receber qualquer atendimento. Ter um outro passaporte, então, era evidência máxima de realeza. Sim, tem gente que até hoje não abandonou certas idéias.
Ao longo da minha vida, sem me dar muito conta até, eu vi um novo país ser construído. Quando Lula assumiu, em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição do ranking da economia global. Quando ele passou a faixa, 8 anos depois, estávamos em 7ª posição. A estabilidade econômica foi trazida por FHC com o Plano Real, e sua mulher, D. Ruth Cardoso, criou o Bolsa Escola, a semente do que veio a ser mais tarde o polêmico Bolsa Família do PT. E nisso seu governo me ganhou. Não foi uma gestão voltada somente para banqueiros, capital estrangeiro e a turma do country club. Ele foi o presidente que mais construiu faculdades e programas de apoio para pesquisadores e atletas e meios para que cada vez mais pessoas pudessem ter a vida transformada, e assim se criou um ambiente favorável para que o orgulho brasileiro pudesse eclodir. Nem todo mundo gostou, muita gente criticou, mas tem uma frase do meu pai, mato-grossense, gravada na minha cabeça, “não é a Zona Sul do Rio de Janeiro que tem que decidir sozinha quem vai ser o presidente do Brasil”.
O Brasil não sabe a dimensão que tem, fato. Quando a gente sai dele, começa a ver as coisas de outra forma e a colocar em perspectiva. É um país imenso, onde cabem mais realidades de que conseguimos nos dar conta, heterogêneo em tudo. Daí vêm muitas das dificuldades que temos em estabelecer políticas pensadas para dimensões continentais com vários povos coexistindo – e muitas vezes disputando – num mesmo território. Entretanto, é exatamente disso que vêm a nossa força, riqueza e grandeza. Naturalmente que os interesses estrangeiros e perigosos são atraídos. É uma equação complexa de ser equilibrada.
Eu vivi muitos anos ao lado da região considerada o berço da milícia, e vi a minha cidade sendo cada vez mais refém dela. Afirmo também que conheço aquela juventude da qual os filhos fizeram parte, cheia de deliquentes higienizados. Além disso, estudei história, tentei prestar atenção, e nisso terminei aprendendo alguma coisa. Eu sabia da ameaça que expandia cada vez mais sua sombra. Uma ameaça real e sinistra.
Eu vi de Portugal meu país padecer mais por culpa de um presidente do que por causa de uma pandemia, sem saber o que restaria com a ganância e sadismo das pessoas que ocupavam o poder. E também vi a gente se tornando piada internacional, como se o protagonismo que havíamos conquistado nunca tivesse existido.
Os resultados do primeiro turno levantaram os cabelos da nuca de muita gente. E a gente sabe que ainda não é hora de baixá-los. Flávio prometia ser um presidente pior do que Jair, porque agora a corja voltava com fome e ressentimento nos olhos, capitaneada por um moleque mimado doido para finalmente ter alguma aprovação do papai. Uma combinação desastrosa.
A minha gente andava falando de lado e olhando pro chão há algum tempo, viu. Os últimos 4 anos haviam dado um respiro, mas isso não significava que estivéssemos longe de ameaças cotidianas, ou que o primeiro quarto de século tivesse dado algum motivo concreto de otimismo. A gente já está acostumado a ver notícias atrozes e absurdos sem questionar, aceitando as piores projeções como um destino certo.
Eu tive medo, muito medo, mas quando eu vi o Rachadinha saindo na frente do primeiro turno, eu sabia que a única pessoa capaz de virar aquele jogo era exatamente o seu adversário político. Um homem com uma trajetória impressionante e sem paralelos; fazer o improvável consta em seu currículo há muito tempo. Não se fabricam homens como ele. É o tipo de coisa que acontece, debaixo dos narizes, nos cantos, sob escárnio e descrença, até se tornar um fato impossível de ignorar. Goste dele ou não, nenhum outro presidente na história deste ou de qualquer outro país teria o poder de juntar tanta gente, do Oiapoque ao Chuí, e também por todo o globo, do nordestino ao sulista, do adolescente ao idoso, todos decididos a fazer o que precisasse ser feito, buscando recursos, sendo criativo, encarando o cansaço, as distâncias e as dificuldades com humor. De lugares que já eram considerados reduto bolsonarento, houve pessoas deixando claro que o Brasil, para variar, é muito maior do que a gente pensa. Para mim, nada define melhor o espírito brasileiro do que isso.
No meu tempo de vida, eu vi o povo aprendendo a ter orgulho do que é e do que tem, se emancipando gradativamente da necessidade de vir qualquer estrangeiro nos validar. Com a pandemia e as outras ameaças que sofremos por formas mais baixas de vida, a gente tinha perdido o caminho para este brio. E em 3 semanas, ele se iluminou, um pavio que costurou uma nação junta por se recusar a caber no quintal dos outros. Olhando uns para os outros, a gente se lembrou do que afinal somos feitos.
Eu não sei o que é mais bonito nisso tudo, sinceramente.
Somado a tudo isso, ainda precisamos considerar o mundo atual, como as chamas que ardem em Paris, a truculência da polícia no povo português que pede por habitação e as fissuras cada vez mais aparentes num sistema que soube nos educar para que pareça blindado. Além da derrota de Flávio no Brasil, a Sérvia se livrou de Vučić e a Hungria de Orbán. E o mundo tá vendo com brilho nos olhos e uma sensação crescente no peito de que, afinal, as coisas podem ser possíveis. Particularmente, acho que a parte mais bonita disso tudo é pensar que a empolgação brasileira, pra variar, consegue vencer barreiras e contagiar quem vê. Como todo fato histórico, este também é um desafio de complexidade para a nossa compreensão, sendo necessário tempo e atenção para entender a dimensão do que foi feito, ainda mais quando o tempo parece estar ao nosso lado. Nas próximas semanas, Israel e Estados Unidos encaram suas eleições, e o mundo anseia pelas respostas que a urnas vão nos dar.

Lula, mais uma vez, fez história, crescendo mais de 10 milhões de votos em 21 dias; vencendo no segundo turno após perder no primeiro; descendo as taxas de abstenção e votos nulos para os índices mais baixos da história democrática do Brasil, e ainda ganhando de Flávio por mais votos do que havia ganhado de Jair 4 anos antes. Mas ele fez porque nós fizemos com ele. Ele chamou, e nós atendemos, com tudo o que somos. E o que se criou foi maior do que capital internacional, algoritmo manipulado, sistema viciado e comprado para que os planos deles se tornassem nosso destino. “Deles” engloba muita, mas muita gente.
Isso tudo fala da força de um dos maiores estadistas do mundo, mas também fala da grandeza do povo que o elegeu, da força da união e de que os planos dos poderosos não são sinônimo de destino da nação.
Só Deus sabe o que o povo brasileiro fez. Os mortais precisam do Tempo para lhes mostrar.
***
P.S.: Aproveitando que eu falei em aniversários, Lula completou 81 anos no dia 6, coladinho com o meu, só que ele celebra no dia de hoje, porque foi registrado 21 dias depois de nascido. Logo após ter publicado este texto, eu vi postagens de manifestantes pelo mundo fazendo o “L de Lula” como sinal de resistência. Tenho certeza de que este é o melhor presente que ele gostaria de receber.
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