Porque não vou discutir com o Steven Seagal

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Eudoxia — seleção para leitura

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Eu tenho feito progressos.

Eu tenho feito grandes progressos, tendo conversas importantes e caminhando. Isso me deixa muito feliz. Sério mesmo, eu andei muito estacionada nos últimos anos, por uma série de motivos, lutos pessoais, gente que era pra ajudar fazendo peso para baixo, mas sobretudo um quadro ansioso-depressivo histórico e a endometriose. E sinceramente, eu nem sei o quanto de uma não foi efeito da outra.

Mas então eu estou caminhando, estudando, entrando em movimento. Maravilha! Só que ainda eu enxergo um ponto de resistência no meio de tudo isso que, confesso, venho adiando porque é algo que me cobra uma energia preciosa que não sei se tenho. Não, eu sei que eu tenho, eu só sinto que é perda de tempo gastar nisso: rede social.

Meu problema não é bem pensar em campanhas nem postagem. O meu problema é ter que entrar nesse jogo bem chato que a internet virou. Hoje eu postei um vídeo em que comento o quanto estou sendo sofrendo com obras já há 3 anos e pergunto se todo mundo passa pelo mesmo ou só eu, comento também que com o número de pessoas que passaram a trabalhar de casa depois da pandemia, talvez fosse hora de revermos as práticas e regulamentações sobre obra. Fora que todo mundo já sofreu com obra de vizinho que não acabava, que foi planejada para 6 meses e demorou um ano e meio. E o chorume que chega nos comentários é impressionante. Pessoas me mandando de volta para o meu país, dizendo que está na lei então pronto e, sobretudo, tirando grande conclusões da minha vida. Não foi a primeira vez.

No início do ano eu fiz uma postagem sobre o caso da Thayane com o Roberto. Não lembra? Foi aquele casal que resolveu subir o Pico Paraná juntos. Lá pelas tantas ela deixou ele para trás, e aí vem o cibertribunal dizer que era certo que ela tinha matado ele, acho até que vidente fez contato com o espírito desencarnado do Roberto. Só que ele apareceu 5 dias depois. Aham, eu também achei aquilo esquisito, mas depois a situação se revelou muito longe dos piores cenários imaginados. Promoveram até encontro entre os dois para ela pedir desculpas pela situação e ele sair de boa. Depois que o desfecho foi dado, eu fiz um vídeo em que dizia que a gente poderia aprender com isso, que as coisas não cabem nos 60 segundos de uma tela, que o universo é bem mais caótico e complexo do que imaginamos, e que poderíamos buscar ter menos pressa em julgar. Lógico, eu julgo, tu julgas, nós julgamos e todo o resto, mas a gente precisava entender que todo julgamento é por natureza incompleto. Isso não é dizer amém para tudo, nem fingir que tá tudo certo o tempo todo, mas entender que quanto mais a gente corre para emitir uma sentença, mais provável é que estejamos enganados.

E pra quê?! Quem foi que entendeu essa mensagem? Quem foi que quis fazer 10 segundos de auto-crítica antes de correr o dedo para o próximo vídeo? Na chuva de comentários, teve muito mais gente me atacando com suposições que tem do mundo, de que mulheres isso e aquilo, do que parar para escutar o que eu tava falando.

Sim, antes de postar o vídeo e ler os comentários, eu já sabia do nível altíssimo de imbecilidade que o mundo atingiu, e nem tomo como pessoal todas as bobagens que vi. A gente está com esta pressa de jogar pedra nas pessoas sem querer parar um momento para se perguntar o quanto do que eu vejo é projeção minha ou só eu fazendo questão de ignorar o que o outro diz. Convenhamos, tá todo mundo amargurado e cansado, e me incluo nessa, por mais que eu tente me manter hidratada e com a terapia em dia. Essas coisas são somente paliativas, o nosso problema é maior e não é individual.

Mas as redes sociais são um jogo de números, bafafás e engajamento. Também são retratos incompletos e reduzidos da realidade. Tem gente fazendo números, criando dados e realidades que não existem. E os debates escalam; as pessoas vão lá com os dedos nervosos, protegidas por suas telas, para jogar todo o incômodo que carregamos. E eu sinceramente escapo disso.

Entenda, eu sou a ovelha negra de duas famílias. Demorou muito, mas hoje eu digo com conforto: sou com orgulho. Eu nunca tive muito espaço em nenhum dos dois lados; passei aniversário e Natal sozinha já, cantei sem ninguém na plateia que eu conhecesse, fui conquistando as coisas na vida, passando no vestibular, me formando, me tornando mestre, sem torcida. Acontece. Não vim reclamar disso. Eu quero contar que por ter estado sempre na de fora, eu tive um ponto de observação de algumas dinâmicas, e me estranhava demais com o que via. Nem sempre a família foi um ambiente em que eu quisesse estar porque via mais drama do que união. E este é o meu ponto: eu detesto drama.

Eu fujo dele. Eu tive muito da minha vida arrastada e atrasada por drama inventado pelos outros, com o agravante de uma prática que eu tinha de me colocar constantemente à disposição das pessoas e suas urgências inventadas. E antes mesmo de toda a terapia ter ajudado a parar com isso, eu mesma já tinha o reflexo de me afastar de cenários assim. Recomendo, aliás.

Eu sequer assisto reality shows porque é só isso que vejo, drama com luz e edição para dar mais drama. E eu não quero ficar de plateia de discussão dos outros, não é meu tipo de entretenimento. Pensando nisso, me pergunto também se nunca me interessei por futebol porque não consegui me encantar com eventos que fazem as pessoas arrancarem os cabelos por 90 minutos sobre o resultado de algo que não muda suas vidas. Não me leve a mal, eu adoro esportes e respeito os gostos e escolhas das pessoas no que querem fazer da sua vida. Meu marido mesmo não perde os jogos do Benfica, e isso nunca foi motivo de atrito ou incômodo. Não é uma crítica a quem curte; é reconhecer que essa parte em mim não veio, ainda mais quando essas coisas conseguem mobilizar tanta gente. Sempre entendi que não nasceu em mim o interesse em gostar das coisas mais comuns que as pessoas gostam. Eu sou esquisita em tudo que faço, falo, decido e em como me comporto. Já aceitei que é meu.

E exatamente por isso eu digo, ficar nesse joguinho de devolver ao outro é chato pacas. Num universo que só nos deixou uma tela do tamanho das nossas mãos que ainda tem que comportar um teclado nelas, tudo é um jogo de dar a resposta mais certeira, fechar com o lacre e acabar com o outro no argumento. Sinceramente, isso é cansativo, desgastante, e para quê? Para adicionar mais uma linha que vai cair num limbo de memórias esquecidas em algum data center por aí, enquanto vai a nossa energia e tempo nesse jogo que não move nada, acho até que nos deixa mais estacionados. O mundo virou uma grande discussão de quinta série. Se eu já não gosto de drama, eu gostei ainda menos dos anos de escola.

No momento em que eu escrevo, tem duas discussões correndo nas minhas notificações das redes. Uma pelo vídeo meu em que falo da obra que me assola e outra num vídeo de um canal sobre tecnologia, que mostra espadas voadoras que respondem ao comando das mãos, inspirado num videogame. Eu escrevi “Podiam acabar com a fome. Mas construíram espadas voadoras.” As coisas que eu tive que ler, ó, Senhor!

Mas o problema nem é esse, é que eu me dou ao trabalho de responder algumas mensagens. Eu sou boa em discutir, faço estrago no argumento, piu piu piu, já irritei muita gente com as minhas respostinhas rápidas. E nisso minha cabeça fica girando em torno dessas conversas, querendo achar as palavras certas para devolver o ataque e defender minha posição. Nem eu me aguento. Por que raios eu to no meio da minha casa querendo retrucar o cara que usa a foto do Steven Seagal no perfil? A gente claramente não tem nada a ver um com o outro, e graças a Deus, não vamos nos esbarrar por aí. Eu tenho mesmo que explicar que a gente não anda precisando de espadas voadoras no mundo, mas sim de água potável, preservação de biomas, direitos básicos e acesso à educação e saúde? Eu tenho mesmo que perder meu tempo me explicando para gente já decidiu não entender?

Eu não to negando a internet. Foi ela que me educou, e continua a me educar. É maravilhosa para ampliar nossas fronteiras, nos conectar com quem e o quê importa, e estabelecer espaços de debate e diálogo. E é exatamente dessas coisas que eu venho sentindo falta. Os ânimos estão muito inflamados, e a probabilidade de escalarem para um embate estéril é altíssima. E eu vejo que este é o jogo, porque enquanto a vida está descendo por este ralo de blá-blá-blá, os algoritmos estão sendo alimentados, os números subindo, e alguém está ganhando com isso. Não eu, e duvido que a outra parte com quem estou batendo boca também esteja.

Eu to aqui confessando a minha inabilidade, e sobretudo a minha franca resistência, em navegar este cenário. Sim, eu já fui informada, posicionamento, discurso, e tudo o mais que os artistas precisam ter, entregar e construir. Sei disso. É uma peteca que eu já deixei cair por assumir que estava jogando mal, e me concedi um passo atrás para ver se consigo chegar em algum ponto que me dê uma perspectiva melhor do que fazer.

Entenda, não é que eu desisti. Eu apenas sei que, para poder entregar tudo isso que é parte essencial do que faz um artista hoje, eu preciso encontrar a minha maneira de usar esse brinquedo, porque senão vou sempre esbarrar nas mesmas resistências que tenho dentro de mim.

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