Lembra quando eu contei aqui sobre o contato que havia feito para começar um projeto autoral? É, melou.
E digo isso com alívio. A conversa presencial não tinha sido ruim, mas agora, olhando para trás, vi que os sinais já estavam lá.
O que aconteceu é pouco depois, já no grupo com os outros integrantes, uma das primeiras interação pelo canal do zap debandou pra um lado desnecessariamente bizonho. Eu já tinha dado uma brochada. E aí hoje rolou outra do mesmo tipo da primeira. Aí não deu mais para ignorar.
No café que nós tomamos, ele quis se apresentar e terminou falando dos problemas de hoje em dia, com orgulhos disso e daquilo. Eu respirei fundo, aceitei o fato de que o mundo é maior do que a minha bolha de algoritmo e dei uma contestada de leve, que ele não levou a mal. “Ok”, pensei, “talvez haja caminho pelas diferenças”. Mas eu devia ter aceitado a derrota quando ele pergunta para mim sobre The Shadow Works. “De quem é?”
Esta uma pergunta que já recebi algumas vezes sobre meu EP. Por algum motivo, algumas pessoas duvidam do nome na capa. Curiosamente, nenhuma mulher me fez essa pergunta, só homens. O ser me chama para um projeto, elogia o meu trabalho, mas quer saber quem está por trás. Em algum momento achei que ele fosse querer a ficha técnica completa para saber quem foram os instrumentistas. Culpa minha que ignorei um sinal de PARE desses que dá pra ver da lua, né? Pensa comigo, esta era a versão primeiro encontro dele, na fase em que ainda está se buscando entender em que terreno pisamos com outrem e trazer a outra pessoa para o nosso lado. Isto era ele no seu melhor! Imagina esse estrupício confortável, agindo como ele se sente no total direito de agir. Eu não gosto nem de pensar.
É uma parte da minha personalidade que às vezes explode na minha cara: eu quero ter certeza que não foi apenas uma má impressão minha.
Nota mental: confiar mais nas minhas impressões.
E confiar, sobretudo que, se elas são boas ou más, é porque vejo as coisas com clareza.
Em todos esses anos fazendo música, eu já entendi que não tem como fazer música apesar do ambiente; a música que sai é um produto direto dele! Todas as vezes que consegui fazer o que eu realmente queria, fosse compondo, gravando, escrevendo ou performando, tanto na ópera quanto no rock, o ambiente sempre foi bom, as pessoas eram cordiais, educadas e sobretudo, abertas ao diálogo. E não é coincidência que as vezes em que não encontrei um ambiente desses, não fiquei feliz com o resultado que entreguei. Músicos – e artistas em geral – são instrumentos analógicos, não digitais, sofrem profunda influência do meio em que estão e tudo o que fazem vai ser fruto disso.
Lembram da posse do Obama? Naquele momento lindo com alguns dos maiores músicos da atualidade, Yo-Yo Ma, Itzhak Perlman, Anthony McGill e Gabriela Montero, se juntaram para tocar música do John Williams? Me dá até uma nostalgia braba porque me lembro de tudo aquilo que a gente cria no mundo naquela época. A gente realmente tava com fé. Mas voltando ao foco, poucas pessoas sabem que a música não foi interpretada ao vivo, foi pré-gravada; porque com as condições climáticas no dia do evento, corria-se o risco de uma das cordas arrebentasse no meio da execução, o que comprometeria tudo. As pessoas sabem que os instrumentos não vão performar bem sob certas condições, como podem esperar isso das pessoas?
Música é sobre pessoas. E acho que isto deveria ser passado às pessoas nas suas primeiras aulas de canto coral ou musicalização infantil. Somos tão bons quanto as mesas às quais sentamos, e tudo o que fazemos depende de quem temos conosco, porque fazer Arte sempre depende das teias de colaboração que temos acesso, e saber como tocá-las é tão – ou mais – importante quanto saber tocar o instrumento.
Não tem como construir nada de bom com pessoas com as quais não se tem abertura para diálogo, toda conversa precisa ser feita de pantufas para não acordar o cão raivoso que elas guardam com o rabo de fora, e sobretudo com alguém que quer limitar o quanto as pessoas com quem trabalham podem ou não se colocar. Meu marido definiu bem, “o puto dono da bola”, acha que manda no jogo.
E entendendo isso eu saio tranquila de situações como essa. E acredito também que a maneira que nos posicionamos diante delas nos define muito como artistas. Quando eu disse que tava sentindo que havia diferenças de perfis que impossibilitavam o trabalho, eu recebi um textão muito mal escrito com ataques pessoais para logo em seguida sem removida do grupo. E o que eu mais gosto nisso é que as pessoas agem desta forma esperando que eu vá ficar ofendida, mas elas só reforçam o quão certa eu estava no que vi. E acho maravilhoso que as coisas tenham rompido logo de cara, eu ia odiar ver energia e trabalho serem desperdiçados com gente que definitivamente não é a minha galera.
Eu estava nos últimos dias me perguntando se havia pé mesmo para esse projeto com toda a pressão que o imbecil sujeito estava colocando e mais ainda com toda a autoridade que ele se concedeu. E hoje durmo tranquila com a resposta mais clara que eu poderia ter. Adoro quando as coisas se resolvem, sobretudo quando o lixo se tira sozinho.
E agora? É só continuar a fazer o que eu estava fazendo, sem alterar uma linha no meu plano. E isso inclui descanso. Beijos e boa noite.
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