Retrospectiva da quinzena
Salve, gente bonita! Na semana passada eu terminei não fazendo a retrospectiva porque as coisas apertaram aqui. E eu ensaiei esta semana toda vir aqui escrever, mas só agora cheguei. Longe de reclamar, só não me sobrou tempo mesmo no meio de tanta coisa legal que pediu muito minha atenção e energia. O curso do MCT acabou, e precisei fazer cumprir todos os requisitos para receber meu certificado. Em algum momento me perguntei se fazia assim tanta questão, e minhas noites de sono perdidas foram um argumento poderoso para me dizer que porra, sim! E consegui dar conta de tudo antes de me meter em um trem para Espinho, perto do Porto, para um Festival de Bodypainting! Eu era uma ninfa, criação do meu amigo e lenda Nuno Blu Esteves, e foi uma experiência bem inusitada. Se você acha que dá trabalho pintar o corpo de uma pessoa para que ela encare uma multidão de peito aberto, você não faz idéia do trabalho que é tirar aquela tinta. Foi meio sabonete e quatro dedos do meu frasco de óleo de limpeza, que se provou mais eficaz. Depois de muito esfregar, eu apelei e chamei a dona da casa que havia nos recebido para que usássemos seu chuveiro, e pedi para ela esfregar minhas costas porque havia duas manchas de tinta azul além do meu alcance, tão perto e tão longe. Até aí eu tava achando borderline humilhante, até que meu colega contou que durante o banho dele, a mesma senhora, cordialmente, ofereceu o marido dela para esfregar as suas costas. E ele ainda foi capaz de recusar uma mão tão gentil. Ai, as coisas que a gente passa pela Arte! Quando eu finalmente consegui me livrar de toda a tinta, eu me meti no trem de volta para Lisboa, porque no dia seguinte, eu tinha o primeiro de dois dias de gravação de um curta metragem. Pode ser em parte a minha vida anterior de criatura dos mares falando, mas eu preciso dizer que foi dos trabalhos mais cansativos que já fiz. É muito tempo de espera para que tudo dê certo, e várias equipes precisam se coordenar para que tudo funcione. E olha que eu era só uma figurante, imagina a diretora! Então, fica aqui uma mensagem pro seu coração: tudo que você vir filmado, tenha muito, muito respeito! Na terça-feira, eu ainda tratei de outras coisas, mas na quarta-feira, o cansaço já tinha se instalado e eu fui praticamente um peso de papel o dia todo. A onda de calor pela Europa não deixa esta conta nem um pouco mais leve. E foi enfrentando ela que na quinta tive outro compromisso. Há algumas semanas, fiz contato com um músico daqui que está querendo começar um projeto. Eu gostei das composições dele; ele, das minhas, e fomos nos encontrar para tomar um café e trocar uma idéia para saber o quanto estamos alinhados para trabalharmos juntos. E preciso dizer que não podia ter sido melhor. Foi uma conversa boa, ele está juntando um bom time e me indentifiquei bastante com algumas concepções e idéias dele. E parece que isto gerou uma onda de entusiamo no resto do grupo. Se tem uma coisa que entendi fazendo música é que a gente só é tão bom quanto o nosso grupo, porque dependemos uns dos outros para fazer as coisas acontecerem. E eu sei quanto a vida pode mudar quando a gente encontra as pessoas certas com quem podemos partilhar e construir nossa visão. Eu sei que muita coisa ainda precisa acontecer e entrar no lugar para que o trabalho dê certo, mas no momento, tudo parece caminhar bem. O que vai ser, o futuro vai dizer.Mas se a gente conseguir fazer o que planejamos, fica marcado para as gerações futuras, que foi em Lisboa, acolhidos pelo ar condicionado de El Corte Inglês, que a coisa começou. Outra coisa para comemorar: finalmente consegui colocar as minhas mãos no Writing Better Lyrics, livro essencial sobre songwriting, do mestrão Pat Pattinson. Estava sentado na minha estante já há alguns meses, e eu estava querendo encerrar alguns outros estudos e leituras antes de chegar nele. Este livro é para ser saboreado. Vai ser uma boa companhia enquanto meu sono órfão das noites de MCT não entra nos eixos. Deixa eu ir tentar dormir. Bons sonhos!
Sono gato
Vocês também sofrem com isso? Não conhece? É fácil de entender; quando você chama, ele não vem, quando ele vem, você não chamou, esfrega o rabo na sua cara, aí ele some 3 dias, fica vagabundiando pela rua, você até ouve o miado dele, mas só de longe. Às vezes parece que a maior fonte de surpresas na minha vida é o meu sono. Eu deveria ser mais empolgante para uma rockstar, tenho a sensação. Mas eu estou escrevendo em um blog em 2026, da mesma maneira que escrevi uns 20 anos atrás, sem saber no que as coisas vão dar. Nos últimos dias, eu fiquei semi-inútil pela casa, aqueles golpes que a endometriose me dá. E olha que já estou melhorando. Diante do que já passou, tô muito melhor. E isto me dá perspectiva do quanto andei mal de saúde nos últimos anos, e a medida em que eu me cobrava. E mesmo com a bateria comprometida, eu olho para trás e me orgulho de tudo que já fiz acontecer. Alguma coisa tem que servir para eu mudar o discurso dentro mim, harmonizar minhas vozes interiores e parar de sofrer da mesma maneira que eu sofria antigamente. A companhia para os dias de baixa foi o Ai WeiWei Talks with Hans Ulrich Obrist, da Penguis. Eu conheci a obra do AWW numa exposição aqui em Lisboa, na Cordoaria Nacional, e na ocasião comprei o livro. Ficou sentado na estante alguns bons anos até ser devorado em 3 dias. E confesso que li com calma. Tudo que vejo dele me explode a mente, e com este livro não foi diferente. Então às vezes eu precisava de longas pausas para absorver as coisas e me deter um pouco mais nas idéias. Curiosidade, Ai Weiwei não consome música, consegue apreciar, mas nunca pede por música. Apesar de ser algo que vai contra tudo que sinto na vida, preciso confessar que não é uma surpresa absoluta, chega a ser coerente. Mas eu não sei se foi por provocação, logo que devolvi este livro para estante, puxei o Révolutions Xenakis, catálogo da exposição que houve na Fundação Gulbenkian alguns anos atrás também aqui em Lisboa. Aliás, se tem algo que os portugueses têm a manha de fazer são exposições. Mas esta leitura me espera para amanhã. Acho que no fundo foi uma intenção de querer aproximar essas duas figuras tão plurais e facetadas que expandem noções de arte. E confesso que isto é algo que vem me inspirando muito. Nos últimos anos, com tudo que venho lendo e estudando sobre criatividade, eu percebo que quanto mais pensamos o que queremos fazer de maneira estreita, mais dificultamos a sua criação. Acreditem em mim, estou no terceiro ano olhando para um album de metal melódico, 9 músicas ao todo, já escrevi 2 e meia. Cada uma vem sendo um parto de fórceps, e eu me pergunto se precisa mesmo haver tanto atrito entre a caneta e o papel. E aí vejo esses caras, criando da poeira, dos arcos no teto, e eu me pergunto o que estou deixando passar. AWW cria, sem se julgar, sem se questionar, e realizou tudo até aqui sem qualquer plano. As coisas foram acontecendo, até mesmo o estádio olímpico Ninho de Passarinho. Tem que haver uma lição aqui, eu sei que tem. Inspirada nele, resolvi ocupar este blog sem muito projeto, só com o mesmo feeling que me guiava quando eu escrevia no último blog que tive há décadas atrás. E confesso que isto termina sendo uma oportunidade maravilhosa numa internet movida à algoritmo e views. SEO, eu rio na sua cara!! É libertador, porque eu posso dar a liberdade de entender o que vai ser tudo isso que estou levantando sem ter que responder dados de validação. O mundo pode mudar para onde quiser, mas isso nunca vai ser prescindível a artistas. Mas por hora, parece que o gato encontrou o caminho de casa. Eu vou dormir. Beijos.
Retrospectiva da semana
Sexta-feira sempre tem uma dose de alegria, não é? Pelo menos tinha até a escala 6×1. E preciso dizer que a alegria que esta sexta-feira traz não é só aquela que a gente conhece. Foi uma semana ótima por aqui, e mesmo quando eu me dei conta de que havia perdido a Feira do Livro de Lisboa, os ânimos não esmoreceram. Na segunda, voltamos do Alentejo depois de mais de uma semana por lá. São dias mágicos, sem prédio sem construído atrás de casa, sem buzina de carro soando porque algum selvagem estacionou em fila dupla prendendo o carro do vizinho, e com a vida em outro passo. Então voltar para Lisboa sempre tem aquele atrito de retorno à atmosfera. Mas desta vez foi melhor do que eu pensava. Na quarta, fui resolver aquelas pendengas da vida cotidiana e aproveitei para passar na loja de vinil. Yes, baby, aqui em casa voltamos à era do som analógico. A vida é melhor assim. Os vinís trouxeram de volta um prazer de ouvir música que eu não tinha noção que tinha se perdido com a era digital. E sem exagero, isto ajudou muito a ter cantado tão bem no mês passado. (A qualquer momento podem liberar as gravações e demais fotos, cruza os teus dedos daí também). A coleção ainda está começando, mas respeito máximo. Jetrho Tull, Pink Floyd, Nina Simone, Trane, Brubeck e Miles; somando ainda highlights de Rigoletto com Pavarotti e Sutherland (só!) e algumas árias cantadas pela mamãe. Sendo assim, faltava então alguma coisa de papai. E chegaram! Dois vinis duplos, com algumas das coisas que meus pais fizeram que eu mais gostei. Parece que meu imóvel valorizou só desses discos entrarem aqui em casa! Se aquela lenda antiga de que ouvir um disco demais cria buraco pela agulha for verdade, eu venho aqui contar. Mas calma, as alegrias não param por aí! Eu aproveitei e deixei lá algumas camisas oficiais para vender. Preciso dizer que todo mundo sempre tem uma reação positiva a elas. Eu entendo, as fotos da Patricia Faustino realmente impressionam demais! Eu fiquei tão feliz em ver que meu mercha oficial sendo vendido lá! Pra quem estiver em Lisboa, vale conhecer o espaço, que tem um acervo de vinis novos e usados alto nível, e tanto o João como o Luís são muito gente finaem. É a Carbono, que fica na Amadora. Mas se você não está em Lisboa, nada de tristeza! Um dos planos para este site é montar uma loja aqui, então em breve você vai poder comprar mercha oficial do conforto de su casa. Oh, sonho! Mas a semana ainda foi mais generosa! As aulas de canto que dei foram ótimas (sim, ainda tenho horários abertos), assim como a aula que fiz. Desta vez to confiando na amiga e colega Suzana Gaspar, soprano maravilhosa com um jeito incrível pra cantar Puccini. Poder contar com o trabalho e a sensibilidade dela me traz muito alívio. Isso porque no ano passado, eu passei por uma situação da qual demorei para me recuperar. Meu antigo professor teve uma reação que me deixou com uma rouquidão emocional por um mês. (Eu falei que 2025 não foi fácil, este foi só um dos vários bafafás.) Não foi nada divertido. Isso me custou mais um trabalho para a Globo e o franco desenvolvimento em que eu tava foi interrompido de uma maneira bem agressiva. Então voltar às aulas, ainda mais como uma pessoas que admiro e adoro, foi sentir que muita coisa foi vencida, sabe? E a aula foi ótima, seguida de almocinho de amigas com comida árabe. Não podia ser melhor. E depois teve a mentoria para artistas oferecida pelo MCT como parte das atividades finais de curso. Eu vou gostar de poder ter as minhas noites livres, mesmo que nem sempre eu as use para dormir, mas vou sentir umas saudades monstras deste curso. Para completar, hoje mais cedo eu tive aula de edição de fotografia com a minha fotógrafa maravilhosa, a quem confio muito da construção de identidade que está sendo levantada. A aula foi ótima, Patrícia explodiu minha mente algumas vezes ao longo de uma hora e pouquinho. Me passou dever de casa, mas aí eu fiquei triste. Três fucking anos com a minha câmera, e só hoje fui notar que estava salvando todos os arquivos em JPEG. Doeu. Tem foto de turnê, viagem, passeio de balão, produção de vinho, campos alentejanos, turma de teatro, natureza, algumas tão maravilhosas que eu queria parabenizar a pessoa que as fez. Mas aí ela mandou esta. Bom, todo mundo tem sua fase de erros de principiantes, não é? Mas, sendo assim, este post fica sem uma foto de efeito para você fazer aquele “uaaaau”. Tenta amanhã. Eu vou indo porque ainda quero ler mais do Ai Weiwei e preciso meditar antes de dormir. Bom fim de semana para ti. Beijos
Novas portas
Esta semana tem um gosto diferente, será a Copa? Ou algum alinhamento astrológico do qual não fui informada? Eu estou até agora, plena quinta-feira, sem saber se estou indo se estou voltando. Eu ando muito ausente de rede social – bom, não totalmente, o scroll continua – mas eu já tenho uma estrutura que estou sempre criando mas não comparecendo muito. Se olharem à sua janela, verão minha frustração daí. Esta sensação das coisas paradas me consomem. Sobretudo quando eu sei que só depende de mim. Ênfase no só. Mas na semana passada algo me tirou 1,5 tonelada dos ombros. Eu estou terminando o curso do querido MCT, Música, Copyright e Tecnologia. E que experiência, meu amor! To estudando Direito autoral e contratual, receitas, IA, e tendo uma visão de mercado que eu achava que precisaria de muito arroz e feijão com farofa de banana pra ter. Três meses que mudaram a minha vida! E se fosse pouco, o estande levado pela querida Guta ao Rio2C levou The Angel na trilha de seu vídeo promocional, com esta que voz fala dando depoimento e tudo! Nem sei se tenho roupa para isso, ô! Olha que gracinha! E esse hit do verão?! E olha que nem foi isso que me aliviou a dor no pescoço. Eu vi o pitching de uma edição passada e num deles, a aluna falou da experiência de ter criado sua própria editora, e disse sobre o momento de juntar o conhecimento necessário para dar esses passos. E que é algo que leva tempo, é complicado, e que parece preguiça. C h o r e i. Devagarzinho assim. Eu ando num momento delicado. 2025 foi um ano de porradas. Falecimentos, decepções múltiplas e variadas, situações bizarras e – já que eu posso sempre contar com a minha vizinhança para manter sua coerência – obra. E eu tenho uma visão dentro de mim que quero muito achar caminho pra colocar no mundo. E todo o dia eu me faço a mesma pergunta: afinal, o que é você, Eudoxia? É tão difícil explicar, e nem quero fazer isto agora, em algum outro momento, eu prometo. Mas é uma visão grande, ampla, que consolide todas as facetas que eu tenho como artista. Logicamente então, nem de longe eu estou caminhando no ritmo que quero. E aí eu faço duas coisas: perco tempo no Tik Tok e me culpo. Nem é tão divertido assim. Curioso que quando saiu este peso dos ombros, o scroll caiu drasticamente. E automaticamente eu passei para um estado físico-mental de tentar viver o mundo sem esta lente incrível e gigantesca que diz que to fazendo tudo errado. Sabe aqueles primeiros passos quando você levanta da cama do quiroprata? Eu ainda me cobro de não estar me fazendo tão presente aqui nas redes. Mas diante desta leveza toda, eu to deixando o corpo achar este caminho, sabe? Ainda mais quando eu ainda to me pergunta quem é afinal esta mulher. Mas então hoje, ruminando minha irritação com os homens trabalhando, eu estiquei a mão na estante e puxei Ai WeiWei Speaks with Hans Ulrich Obrist. Já ouviu falar do Ai WeiWei? É o tipo de cara que eu quero ser quando crescer. Artista chinês, designer, arquiteto, curador, poeta, blogueiro e editor. Viu? Leu? O cara é blogger! Aliás teve um blog super visitado que virou até livro. (Sim, já estou atrás de uma edição. ) Isso virou a minha cabeça, e eu mal tinha chegado na página 5. Lembrei de quanto já escrevi em blog. Tive um do qual eu gostei muito, e me gerou histórias bem legais até. Não, não foi pop, mas era meu e eu gostava. Fiz durante muitos anos e parei. Fui perdendo o tesão porque tive um ex, daqueles que mereciam processo e medida protetiva, que mesmo depois de nós terminados, ele gostava de ficar acompanhando a minha vida e espalhando calúnia por aí. Deve ser uma merda ser meu ex. Eu aqui vivendo a minha vida e ele lá sem cabelo, mesmo depois de toda a finasterida que tomou. Quem sabe, sabe. E lembrar disso é tentar recuperar um fio que se partiu lá atrás. E entender que Arte é feita na resistência, assim como todo o resto na vida de uma mulher. E que eu ficar insistindo na mesma pergunta talvez seja só eu falhando em enxergar todas as opções que há diante de mim para criar, dar fluxo e rumo à toda esta criatividade que sinto gritando nos meus ouvidos todos os dias. Negócio é botar os dedos para trabalhar. E fora das redes sociais, eles funcionam muito melhor! Ah, updates. O Corpo Feminino ainda está em progresso, mas lógico que não linear. Já esbocei algumas passadas lá do final, mas a parte 2 ainda não. E também estou trabalhando nas minhas fotografias. Vai que você compra uma cópia no futuro, hein? Vai poder dizer que leu sobre isso quando tudo era só mato. Agora tá dando hora da aula e eu ainda preciso comer. Beijos.
O Corpo Feminino – parte I
O sol ainda não tinha saído de trás do horizonte mas a vegetação estremeceu. As vozes do casal se fizeram ouvir, mas as criaturas à volta não entendiam bem o que se passava. A mulher moveu-se com passos decididos, caminhando pelas rotas que a vegetação permitia, até que chegou à clareira para ficar banhado pelo sol. Examinou à volta, até os ventos estavam quietos. Inspirou fundo e rasgou o silêncio ao meio falando a palavra que não cabia na voz de ninguém que lá habitava. A claridade se intensificou, o próprio sol se dobrou em curiosidade. A luz, de sua imensidão, revelou milhares de olhos que a indagavam, julgavam e, como ela, esperaram. Mas o silêncio persistiu, e ela não insistiu. Porque sabia que fora ouvida, e na persistência do silêncio estava sua resposta. Deu-se ao trabalho de encarar de volta tantos olhos quanto pode. Ela abaixou a cabeça. E os mais de mil olhos julgaram-na vencida e sumiram. Mas se enganaram. Ela tomava ar, inspirava, ao tempo que o sol voltava a seu lugar. E enquanto erguia a cabeça, levantou as mãos tão distantes uma da outra quanto pôde, os pés descalços na relva. E de seu peito brotou a canção, que chegou mais longe carregada por todo o silêncio que cobrira o jardim. Era grave, morna, soava como uma memória da qual deveriam se lembrar. Mas as vozes emergiram mesmo assim, como já era hora de cantar a manhã. Uma manhã quase normal. Ela repetia, e todos respondiam, como se não quisessem que a canção terminasse. Ela não queria. Adiou ao máximo o fim, até se dar por vencida. Então girou os tornozelos para senti-los ainda mais pesados, e refez o caminho de volta. – Vamos comer? Eu tenho fome – disse impaciente. – Vá tu. Tens que se acostumar a comer sem mim – beijou seus lábios e continuou no seu caminho, sem se alterar pela irritação visível no homem. A manhã já se instalara com o canto no lábio das flores do jardim, mas ela não parou até ter diante de si as barras dos portões. E então notou que cada passo em sua direção era um passo que recuavam; largo ou estreito, era sempre a medida certa, ela testou. Então pôs-se a correr, para vê-los fechando à sua frente com um estrondo. Mas nem assim ela parou. Chegou aos pés das grandes portas, reluzentes e sem tranca. Tentou forçá-las, tentou puxá-las, mas não se moveram. Então ajoelhou-se, sentou-se sobre os calcanhares e respirou fundo. Muito fundo. Olhou à volta, por cima dos ombros e até para o céu. E quando a solidão espremeu as lágrimas de seus olhos, suas mãos começaram a cavar. E quanto mais suas lágrimas corriam, mais ávidas suas mãos agiam. Cavou até cansar, e então cavou um pouco mais, para em seguida espremer o corpo pela cova estreita para sair do outro lado. Rastejou para fora do jardim, colocou-se de pé e finalmente sentiu como o solo era áspero e rochoso, e quente do sol escaldante. Olhou à volta e precisou de algum tempo para encontrar alguma vegetação cujas folhas pudessem ajudar a proteger os pés das pedras do chão e o corpo da força do sol, um sol tão implacável que lhe secou as lágrimas. Calçou-se, cobriu-se. E pôs-se a andar.
Sob as pilhas de baderna
Salve, gente bonita, como vocês estão por aí?Eu, para variar, estou debaixo de uma pilha de coisas que sinto que só eu vejo.Bom, já há um mês que voltei para casa depois da última temporada no Brasil, que incluiu o show no RedStar Studios (que foi um sucesso!). E desde então eu dei aquela sumida de costume, por vários motivos!O primeiro é que eu estava exausta depois do show, nada inesperado contando que eu acumulei funções de produção, social media, tesoureira, figurinista e maquiadora, além de ter que subir no palco e entregar um repertório que foi montado com todo o carinho, encerrando uma espera que tinha começado em 21 de julho de 2025. Sim, eu fechei a data do show na véspera da morte do Ozzy. Então toda a carga que eu já tinha em voltar a tocar em São Paulo depois de oito anos daquela noite com o Geoff que mudou tudo na minha vida, ganhou uma camada nova de significado quando o pai de uma tribo tão ampla quanto o Heavy Metal se vai.Se tudo isso fosse pouco, em uma semana eu embarcava do Rio de volta pra casa, em Lisboa, depois de 2 meses fora.Essa reentrada na atmosfera nunca é fácil. Sair do verão carioca para o inverno europeu me mói o espírito, além de ter que voltar a atenção às coisas que ficaram 60 dias à minha esperaEntão entre voltar para casa, tocar a vida aqui, ensaiar para a ópera, terminar de compor álbum, eu ainda não consegui vencer esta sensação de fazer aquém do que eu deveria. Eu tenho vídeos novíssimos para postar que ainda não consegui colocar no ar. Mas eu não venho reclamando, na verdade estou melhor este ano do que em vezes anteriores! Eu comecei dois cursos que estão me deixando super empolgadas; um é do Música, Copyright e Tecnologia, com uma turma de feras lideradas pela sensacional Guta Braga, e o outro é o Vozes de Cura, com a Renata Vanucci olhando voz de uma maneira muito mais ampla e holística do que somos guiados a ver nos manuais de canto. As idéias fervem!E eu vou achando caminho entre elas. No momento, estou terminando de configurar uma página no site para agendamento de aulas. E isso traz duas notícias: a primeira é que voltei a abrir horários de aula remotas ou presenciais em Lisboa, e a segunda é que eu preciso de depoimentos de alunos para colocar na página. Então se você quiser marcar aulas ou contribuir com as boas memórias que criamos, é só entrar em contato.Por aqui as coisas seguem, porque este ano ainda inventei de montar meu curso de canto e mais um bando de coisa. A gente vai se falando.Beijos
Ensaio não é performance
Cheguei a São Paulo com a intenção de escrever este texto na segunda-feira. Não aconteceu. Desde então, os dias foram ocupados por ensaios, aulas, visitas técnicas e por aquele tipo de trabalho que a gente costuma deixar para depois — até perceber que virou uma montanha. Conciliar as funções de cantora, produtora, tesoureira, professora de canto e social media faz parte do processo de colocar um show em pé. Especialmente quando o objetivo não é apenas “executar” um repertório, mas entregar uma experiência ao vivo real. É disso que este texto fala: da diferença fundamental entre ensaio e performance. O ensaio é o lugar da organização.É onde a gente erra, repete, desmonta e monta de novo.Onde a técnica é lapidada e as decisões são tomadas com cuidado. Mas o palco não aceita apenas correção. No palco, fazer exatamente o que foi ensaiado é pouco.A performance precisa ir além do que está gravado. Precisa ser maior, mais viva, mais arriscada. A gravação é um registro.O show é uma experiência. Uma foto do topo da montanha nunca terá o mesmo valor que a subida — o vento, o esforço, a paisagem se abrindo aos poucos. O palco nos dá asas. E, quando isso acontece, a única escolha possível é voar. O palco transforma a música Existe algo que só acontece ao vivo.A música se aquece na chama da performance. O corpo interfere no som. O público interfere no tempo. A energia altera as decisões. Por isso, o ensaio serve para que, no palco, possamos esquecer o ensaio.Para que a técnica vire instinto.Para que o controle vire liberdade. Essa é a lógica que guia todo o trabalho por trás de The Shadow Works ao vivo. Estou extremamente feliz com os músicos que vão dividir o palco comigo neste show. Com exceção do baixo, estarei acompanhada pelos mesmos músicos que gravaram The Shadow Works. O Ronaldo, que também é arranjador, não pôde abraçar este projeto ao vivo por conta da agenda intensa que teve este ano com o Gustavo Lima. No lugar dele, teremos Daniel Rizzo, que chega com força total para esse momento. Seguimos com Geison Costa na bateria e Gus Soularis nas guitarras — produtor do EP e coautor de “The Chest”. Gus é um irmão de vida e de música; sem ele, este show simplesmente não aconteceria. Sinto que essa nova fase da minha carreira precisava exatamente desse início:Eudoxia no palco, com The Shadow Works transformado pela experiência ao vivo. Onde o registro termina, o show começa Até o dia da apresentação, o foco é um só: polir o repertório para que, no palco, ele possa se expandir.Ensaiar não para repetir — mas para transcender. Se você puder estar presente, será um prazer dividir essa experiência.E, se não puder, talvez possa recomendar o show para alguém que você sabe que vai gostar. Porque algumas coisas simplesmente precisam ser vividas ao vivo. Vou lá que ainda tem muita coisa a fazer!
Show no Redstar 24 de janeiro
Salve, gente bonita! Como vocês estão? Espero que todos tenham grandes planos para as festas de final de ano — mesmo que o plano seja apenas sumir e descansar um pouco. Já estou de volta à nossa querida Terra Brasilis. Cheguei na segunda à noite e, tirando a terça-feira (quando eu estava mais para pano de chão do que para pessoa funcional), os dias seguintes foram intensos. Além da adaptação ao fuso, há muito o que fazer: produção para o show de janeiro, organização da agenda e as primeiras aulas de canto que já aconteceram. Nem eu sabia que estava com tanta saudade disso! Aliás, ainda tenho vagas disponíveis. 🎤 Show Eudoxia em São Paulo – 24 de janeiro no Redstar Mas o motivo principal deste post é compartilhar com vocês as informações do show de São Paulo, no dia 24 de janeiro, no Redstar. Os ingressos já estão à venda, e todos incluem meet and greet. Algumas modalidades ainda dão acesso aos ensaios no Greenhouse e ao kit de merch com preço promocional. O link para compra está logo abaixo do cartaz — e eu sei que poderia colocá-lo aqui no meio do texto, mas queria que vocês vissem primeiro como o pôster ficou lindão! 📍 Estarei em São Paulo a partir do dia 12 Aproveitando que falamos da minha casa em Sampa, o Greenhouse: chego no dia 12!Além dos ensaios e compromissos do show, também vou abrir vagas para aulas de canto e mentorias presenciais. INGRESSOS À VENDA
Nova seção no site
Quando eu listei à Larissa tudo que queria neste site, terminei deixando de lado uma seção que estava na minha cabeça há muito tempo: downloads. Não foi um problema, porque o trabalho dela já tava vindo apagar incêndio (eu queria ter lançado o site bem antes da data de lançamento de The Shadow Works, mas foi demais para as minhas duas mãozinhas), e eu não tinha nada para colocar na seção além de várias idéias. Mas nas últimas semanas uma delas, mais insistente, tava me cutucando, e eu já aprendi nesta vida a não ignorá-las. Eu via duas imagens, inspiradas em versos de “The Chest” e “The Angel”. E gostava tanto do que via que achava que iam dar uns adesivos bonitos para sair colando mundo afora; mas tinha um problema, faltava algo de “The Song”. Cheguei a achar que não tinha nenhum verso nela que pudesse servir o propósito. Só que as coisas mudam quando a gente olha com atenção, né? E terminou que foi das idéias que mais achei interessante. O pedido dos adesivos já foi feito, será entregue no início de dezembro, chegam a tempo de ir pra minha lojinha no próximo show. (Que aliás os ingressos começarão a ser vendidos em breve! Se estiver interesse nesse lote, é só se inscrever na mailing para não perder nada!) Mas eu terminei gostando tanto das imagens que resolvi inaugurar minha seção de downloads com elas. Quem quiser, já pode baixar as imagens como wallpaper do telefone. Deixei num tamanho mais universal, espero que sirva em todas as telas. É só clicar e baixar, sem assinatura, sem inscrição, sem preço surpresa, sem ter que deixar número de cartão de crédito. Como já falei pra vocês, eu sou oldschool. Sigamos, já apontando para passar 2 meses no Brasil. Já consigo sentir o gosto da água de coco gelada! Bom domingo para quem passa por aqui.